19 abril 2010

Uma espécie de ficha de leitura#10

Infelizmente, não há nada mais difícil em literatura do que descrever um homem a pensar. Um grande inventor respondeu um dia a quem lhe perguntava como fazia para ter tantas ideias novas:"pensando initerruptamente nelas". E de facto bem pode dizer-se que as ideias inesperadas nos vêm porque estávamos à espera delas.(...)
Quanto melhor a cabeça, tanto menos se dará por ela. É por isso que o pensamento, enquanto estiver em movimento, é um estado deplorável, semelhante a uma cólica de todas as circunvalações do cérebro; e quando chega ao fim já não tem a forma do processo de pensamento tal como o experienciamos, mas a da coisa já pensada, que, infelizmente, é uma forma impessoal, porque então o pensamento se volta para fora e está preparado para comunicar com o mundo. Quando uma pessoa pensa, torna-se por assim dizer impossível captar o momento entre o pessoal e o impessoal, e é certamente por isso que o pensar é um embaraço tão grande para os escritores que eles preferem evitá-lo. (...)
Temos, por isso, de reconhecer que uma pessoa que pense, ainda que pouco,, se arrisca a cair naquilo a que se poderia chamar uma companhia caótica.
pp.164-166

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