20 dezembro 2003



III

Foi sem nenhuma pressa que caminhámos, durante muitos dias, pela antiga linha do combóio. Por sentirmos pena um do outro, fomos juntos. A noite estava.... lembro-me lá eu sequer se era noite ou dia!
Lembro-me de ti, eras um copito azul de vidro fino antigo, tinhas frio e estavas delicado, como sempre.
Tremias porque sim, não era o frio, hoje sei-o bem...
Fomos por ali porque percebemos, por acaso em conjunto, que tinhamos de rumar no sentido oposto ao da cidade, não conheciamos mais nenhuma, mas a nossa ideia era encontrar fauna divresa daquela com quem sempre tínhamos estado...

Na verdade sabíamos que não havia cidade alguma no mundo sem ser a nossa, mas queríamos tanto...
Foi um fino anjo azul, parecido contigo, com quem esbarramos no fim da linha negra, escura, opaca. Era o sentinela do mundo que não há

Fugimos e até hoje permanecemos fora da cidade e da linha, o mundo que espera(á)mos também.



II

policromada era a ponte que nos ligava à terra, ao céu,
nas primeiras horas não lamentámos
não respirámos...
percebemos que o mundo, saído de nós, entrado de nós, iniciara o nunca esperado processo de putrefacção.

agora sabemos que os rios são cor de cinza, que as maçãs não são doces, que o orvalho quando entra nos bosques fá-lo por nenhuma razão especifica e sabemos mais: o feno dá um péssimo leito. sabemos muito mais coisas, mas não queríamos saber.

chegámos a essa conclusão todos juntos, naquele mesmo dia, em que, pela primeira vez, vimos o megulhar da ponte e com isso os sorrisos transformarem-se em hóstias de podrirão social, as cervejas em mijo quente e o amor em equação finaceira de mais valia. Os bebés o seu produto interno bruto.

agora sabemos isso tudo e vemos a ponte muito maior do que realmente era: temos lágrimas eternas (esquecia-me já que também sabemos que não há eternidade) que nos graduam a memória.

o sonho mora na outra margem, nós só podemos aceitar o terror. É que a ponte já existia antes nós: não dominamos a técnica de construção.

Espera-nos agora a ponte negra, mas transparente, do descanso


19 dezembro 2003

António Ramos Rosa


Não desisti de habitar a arca azul

Não desisti de habitar a arca azul
do antiquíssimo sossego do universo.
A minha ascendência é o sol e uma montanha verde
e a lisa ondulação do mar unânime.
Há novecentas mil nebulosas espirais
mas só o teu corpo é um arbusto que sangra
e tem lábios eléctricos e perfuma as paredes.
Aos confins tranquilos entre ilhas mar e montes
vou buscar o veludo e o ouro da nostalgia.
Deponho a minha cabeça frágil sobre as mãos
de uma mulher de onde a chuva jorra pelos poros.
Ó nascente clara e mais ardente do que o sangue,
sorvo o cálice do teu sexo de orquídea incandescente!
A minha vida é uma lenta pulsação
sob o grande vinho da sombra, sob o sono do sol.
Há bois lentos e profundos no meu corpo
de um outono compacto e negro como um século.
Com simultâneas estrelas nas têmporas e nas mãos
a deusa da noite, sonâmbula, desliza.
Ao rumor da folhagem e da areia
escrevo o teu odor de sangue, a tua livre arquitectura.
Prisioneiro de longínquas raízes
ergo sobre a minha ferida uma torre vertical.
Vislumbro uma luz incompreensível
sobre os campos áridos das semanas.
Elevo o canto profundo do meu corpo
sob o arco das tuas pernas deslumbrantes.
Escrevo como se escrevesse com os meus pulmões
ou como se tocasse os teus joelhos planetários
ou adormecesse languidamente no teu sexo.
I

Os tons não são claros nem negros. A paisagem pinta-se da cinza do meu fumo.
Do cigarro vêm grunhidos de indiferença. O tempo e o calor perdem-se nas horas em que fumo.

A traquilidade foge com a tranquilidade... e a cinza cobre todo o quadro, até a moldura.


Ah! Mas se pudesse ser nada, viajar por nenhures e instalar-me na utopia. Se a carne e o sangue fossem passagens primeiras e podres de um caminho tão longínquo quão longinqua é a ideia dessas mesmas passagens...

Oh! Mas hoje sabemos que somos isto! Um nada eterno, de facto, mas sem caminho, sem trilhos que percorrer ou apeadeiros onde sair.

Resta-nos este fumo que sobe e se dissolve, levando-nos atrás

17 dezembro 2003

I
Aguarda
há algo que chama
maior que essa chama

são os dias
lestos desabridos
voláteis como o tempo
meuRebuçadoSe as Palavras pudessemdizeRCoisasTão belasquanto as LetrassePodem desenhar, se pudéssemosdesenharasPalavras como asCidades, se as cidades fossempontos dechegadapontos dePartidaondeHabitássemospermanentes essespontos, Lagartixa, este espaço em branco que levamos osdois, aqui Espaço por ondecorreTinta-Vontade-de-desenhar-te-as-palavrasMas também no espaçoque queroPercorrerDescobrir Contigo.

J
Introdução ao Terrorismo Cultural


por Miguel Vale de Almeida

INTRODUÇÃO AO TERRORISMO CULTURAL

Prólogo Pré-terrorista

Tenho-me dedicado a duas actividades que exigem um determinado tipo de disciplina: as ciências sociais e a política. A primeira, de que fiz profissão, exige a disciplina da metodologia e o rigor da busca da objectividade possível. A segunda, onde tento transpor os conhecimentos da primeira para a intervenção social, obriga a considerar o que é possível, conferindo um grande peso à estratégia e à táctica. Tenho feito a fuga aos constrangimentos de ambas as actividades através de alguma forma de criatividade, especialmente a escrita de ficção. Mas a ficção coloca o seu autor numa espécie de patamar de desresponsabilização (são as personagens que falam e agem...). Será possível uma outra forma de expressão, em que as ideias fluam fortes e radicais, baseadas numa espécie de dogmatismo subjectivo? Um belo dia, numa carruagem de metro entre o Parque e o Marquês de Pombal, ocorreu-me a expressão “Terrorismo Cultural”. E, tal como o escritor que começa a elaborar uma história a partir de uma palavra ou título inspirador....

Lição 1. Introdução ao Terrorismo Cultural

1.1. O Decálogo do Terrorista Cultural

1.O Terrorismo Cultural (doravante também TC) tem por base a revolta contra a hipocrisia conservadora e contra o bem-pensantismo progressista. Mas o principal inimigo do TC é a indiferença. Chama-se “Terrorismo” porque, nos dias que correm, a atitude mais sã é adoptar/adaptar os termos mais desprezados. Se Bush elege “O Terrorismo” como seu inimigo principal, e toda a gente se sente obrigada a condenar o terrorismo, então o TC proclama-se terrorista. Não se trata de terrorismo contra a vida das pessoas – um empreendimento estúpido e inútil, já que a maior parte das mortes não naturais são provocadas pelas instâncias que se proclamam anti-terroristas: governos, empresas, igreja, nações... Trata-se de terrorismo cultural, no sentido antropológico e mais lato do termo: terrorismo contra as crenças, os valores, os hábitos e os projectos que as instituições que temos – e muitos dos parvos que as representam – defendem.

2.O Terrorismo Cultural aceita a contradição permanente. Ao contrário da dialéctica, que percorre o espectro direita-esquerda, o TC defende que as contradições não se resolvem. Nesse sentido, o TC está mais próximo de algumas filosofias orientais e de outras ditas “primitivas” que vêem a contradição como o elemento dinâmico constante da sociedade, sem outra resolução que não a sua repetição cíclica e infinita. Só não é uma filosofia oriental porque não tem paciência para orientalices babacas, nem para a forma como elas têm sido cooptadas por yuppies budistas-de-Los-Angeles e gente do new age. Só não é um elogio do primitivismo porque não tem paciência para intelectuais burgueses que se fascinam com as danças tribais no Discovery Channel e gastam uma fortuna em viagens naturalistas à Amazónia para serem picados por mosquitos.

3.O TC é um bricolage de influências. Nele pode encontrar-se um pedaço de tudo: um bom pedaço de Anarquismo Libertário, tanto na vertente socialista europeia como na vertente liberal americana; um bom pedaço de Marxismo, assim como um bom pedaço de Liberalismo; pedaços de Situacionismo, de Gandhismo, de Filosofia Pragmática, de Hedonismo, de Teoria Queer; sobretudo, o TC simpatiza instintivamente com o Cinismo Realista. (O bricolage do TC não tem nada a ver com o bricolage dos pós-modernos, pois o TC não tem paciência para os pós-modernos que cooptaram um certo potencial TC para o (des)conforto de universidades americanas frequentadas por filhos de narcotraficantes ou para o small print de revistas crípticas publicadas em França). Aquilo que o TC não suporta é o elogio absoluto da racionalidade ou o elogio absoluto da emotividade; o primado da biologia ou o primado da cultura e da construção social; as pessoas que se armam em marginais ou as pessoas que se armam em sistémicas. O bricolage e a contradição permanente são aliados natos na luta cínica pelo desmascaramento dos sistemas de acção e pensamento. São do mais realista que pode haver – sobretudo porque o TC não se preocupa com a utilidade.

4.A primeira virtude de um TC (que não se chama virtude, pois o TC não tem paciência para as virtudes, assim como não tem paciência para o imoralismo militante dos pensadores “marginais”) é saber gozar consigo próprio e ter prazer nisso. Não é possível aterrorizar a cultura sem se usar a si próprio como exemplo de como as coisas realmente são: bricoladas, contraditórias, irresolúveis. O projecto de identidade pessoal dum TC é a ausência de projecto, pois este necessita sempre de um sistema de crenças coeso ou, no mínimo, da submissão a uma autoridade ou a um status quo proclamado pelo senso comum.

5.Esta coisa de “irresolúveis” merece uma explicação: será o TC um desesperançado? Acha ele ou ela que nada tem solução? Não é bem assim. O TC abomina utopias, milenarismos, histerias de massa, populismos, demagogias, livros de auto-ajuda e outras formas de substitutos da religião – incluindo a religião em si. Está mais que visto que conduzem ao desastre: do “socialismo real”, às guerras religiosas, passando pelas seitas em que toda a gente acaba morta. O TC tão-pouco acredita na ilusão de felicidade através do consumo promovida pelo capitalismo. O cinismo realista do TC desconfia das lavagens cerebrais, quer venham da direita quer da esquerda, do campo religioso ou do campo científico, do campo socialista ou do campo capitalista. Não quer isto dizer que o TC seja um hedonista ou um “desconectado”. Os primeiros são uns tontos, porque não percebem que obtêm o seu prazer à custa de não questionarem o que lhes permite obterem-no; os segundos tontos são, porque escolhem hipocritamente aquilo em que participam e aquilo em que não participam (por exemplo, não votam porque “não participam nessa farsa”, mas nunca falham a picar o ponto no emprego...).

6.O TC desconfia daqueles que dizem que fazem TC: artistas, comentadores e opinion makers, jovens em manifestações anti-globalização, e outras espécies. O TC desconfia também dos que dizem que eles são apenas diletantes ou pessoas que estão a passar por uma fase. O TC desconfia dos primeiros porque de facto acha que são diletantes ou estão a passar por uma fase. Mas desconfia dos segundos porque acha que eles não têm autoridade para emitirem aquele juízo: a sua opinião é o simples balbuciar das banalidades auto-satisfeitas do senso comum.

7.Tudo o que um TC disser está sujeito a revisão por outro TC e assim sucessivamente até ao infinito, numa discussão eterna, bricolada, contraditória, realista, cínica e humorada, desde que com isso ninguém deixe de almoçar, dormir, ir à praia, dizer a sua opinião e fazer qualquer coisa de criativo.

8.Um bom TC destruiria imediatamente este texto. Um bom TC não pode admitir a possibilidade de ajudar a criar um dogma, associação, movimento, escola, partido, tendência, seita, culto, lobby, grupo de ajuda e muito menos uma empresa.

9.Não existem bons TCs.

10.Não existe ponto 10: um TC não consegue resistir a escrever um Decálogo só com nove pontos.