02 dezembro 2005

Um dia atrasado

Eu não tinha pensado fazer um post sobre a Independência. Mas depois de ter dado a minha voltinha bloguística de ontem, percebi que vai ter que ser. É que tanta espanholice aguda já irrita! Será que as pessoas não pensam no que escrevem, não medem as consequências?

O texto começou como uma resposta a estes rapazes, e tendo crescido muito, decidi publicá-lo cá em casa.

Muitas pessoas olham para Madrid, vêem riqueza e prosperidade, e acham que Lisboa seria, em caso de dependência, uma nova Madrid.

Isso é só falta de capacidade de entendimento e julgamento. Basta ver como lutam ainda hoje os bascos por uma coisa tão simples como falar a sua língua! Parece que as pessoas não se dão conta do que seria ter que dispensar dias, meses, anos da sua vida a lutar para poder falar português (que seria votado ao estatuto de dialectozeco, não esquecer...).

Mais, vale a pena olhar para algumas cidades, nomeadamente no país Basco e na Galiza. São pobres; estão cuidadas, mas apenas dentro das possibilidades. A população, nas ruas, tem um aspecto pobre; raras pessoas andam cheias de sacos de compras das grandes lojas como se vê em Madrid.

E depois, ainda nos sujeitaríamos ao que aconteceu na Galiza quando foi o desastre do Prestige, cada vez que precisássemos do governo central. Durante semanas, já com observadores internacionais nas praias a ver o crude, a filmá-lo e transmiti-lo para o Mundo, o sr. Aznar continuou a dizer que era tudo imaginação e que não desbloqueava nem um cêntimo.

Estes seriam os retratos de Portugal se pertencesse a Espanha. Eles capital já têm e não consta que pudessem ter duas. Lisboa seria apenas mais uma cidadezinha de província, e o resto do país seria a província da cidade provincial.

Portugal está mal, está pobre, mal gerido. Mas a culpa é nossa, dos eleitores e dos cidadãos, tanto quanto o remédio está nas nossas mãos. Em Espanha, os nossos votos contariam 1/5 do total. O futuro do país nunca dependeria de nós. Independentes, somos donos do nosso destino.
Não vale de nada queixarem-se que o país vai de mal a pior, se os eleitores continuam a não votar, ou votar para o manter exactamente nessa rota.
E pertencer a Espanha (ou a qualquer outro país) não seria solução, enquanto as pessoas não perceberem que as eleições fazem parte da cidadania (e até isso parece ser difícil de entender...), mas principalmente, que um cidadão é muito mais do que um eleitor.

01 dezembro 2005

Congratulations, Mr. Bochmann!!!


O professor Christopher Bochmann vai ser hoje condecorado pela Rainha Isabel II.

Trata-se do compositor e professor da Escola Superior de Música de Lisboa (e antigo director), maestro, mas sobretudo do sábio e pedagogo.

Só de me lembrar, ainda fico impressionada com as aulas de composição dele. Era capaz de me recomendar a consulta de qualquer partitura da biblioteca, com o número de compasso e a página, de cor! E se houvesse piano por perto tocava a passagem que fosse preciso também de cor!

Como viveu em vários países de culturas muito diferentes, é uma pessoa de cultura vasta e espírito muito aberto. É assim uma mistura entre rigor inglês e improviso português. Acho que não deve haver nenhum aluno de composição da ESML que não tenha uma história engraçada passada numa aula dele.

Eu e muitos dos meus colegas estamos espalhados pelo Mundo em diversas escolas; viemos todos da ESML, onde tivemos uma preparação de alto nível graças aos professores que tivemos, entre os quais o Professor Bochmann.

Este é o lado humano. O currículo formal está espalhado pela internet: aqui, por exemplo.

E agora, passamos a tratá-lo por Sir?

30 novembro 2005

De que é que têm medo, afinal?

Acho que já disse algo relacionado com isto há pouco tempo, num post sobre o Luís Sepúlveda.

Dou o exemplo do Che, porque o mataram por medo. Ou melhor, pavor. E ainda hoje, os sucessivos governos da economia e da guerra matam gente boa por todo o mundo. Mas de que têm tanto medo, afinal?

Será do Amor, da ternura?

Ou do sorriso aberto e com franqueza, de um homem lutador, determinado, certo da sua razão, e (talvez por isso mesmo) de olhar feliz?

E se de repente me aparecer um polícia à frente?

Desde que ouvi as notícias desta manhã que ando cá com uma dúvida. A polícia tem agora autorização para andar nos transportes a identificar cada um (além dos brutamontes que nos controlam os bilhetes). Ora eu tenho o direito de não andar a ser vigiada e de não ter que dar satisfações à polícia sobre a que horas estou em que linha de Metro, e mais as perguntas que se acrescentam nestas coisas: que está cá a fazer, como se sustenta, que faz na vida. É que não me apetece andar a mostrar o meu BI e a contar a minha vidinha a cada palerma fardado que me aparece pela frente! Que raio pode uma pessoa dizer numa situação dessas?

Mãe, pai... não tarda muito vou eu também

O Sarko andou aí uns dias distraído. Deve ter ido visitar a família à Hungria (que é no estrangeiro, por acaso). Já de volta saiu-se hoje com mais umas quantas medidas das do costume, e como tirou férias, hoje foi em catadupa! Nem vou falar de todas em separado, não vale a pena repetir disparates. Quem quiser saber mais, aqui está o link (um dos possíveis).

Com tanta medida para expulsar os estrangeiros, ou até impedindo-os de vir quando ainda estão no país de origem (o que quer dizer que vai actuar como autoridade em país estrangeiro - mais um "copy-paste" do Patriot Act dos EUA), tenho cá a impressão que se ele continua a produzir leis destas a esta velocidade, não tardará muito a expulsar-me a mim também.
Será que é seguro ir passar o Natal a casa?

Aumenta o racismo dos franceses, mas ainda por cima, aumenta também a concorrência (que neste caso se traduz em racismo) entre os próprios imigrantes, na discussão de quem tem "a migalha maior", quem tem a menos má das oportunidades para cá ficar.

Não podemos esquecer a memória/ história deste tipo: os pais, judeus húngaros, têm uma história de esconderijos durante o III Reich, fuga à invasão de Estaline. Deixaram um castelo na Hungria e chegaram a França como refugiados. Foram aceites, acolhidos, integrados. Tiveram trabalho, formação, "direito de solo" para os filhos. Conseguiram restabelecer a posição social que tinham tido na Hungria. Instalaram-se em Neuilly, nos arredores de Paris, um dos bairros mais ricos e chiques da Europa, porque foram aceites, porque foram integrados, porque foram respeitados os direitos ao trabalho, à nacionalidade, os direitos de refugiados.


Sarkozy t'as oublié, tes parents sont étrangers!

26 novembro 2005

Quem se lembra das fantásticas montras de Natal?

Nos armazéns do Chiado e do Grandela, lembram-se dos bonecos, dos cenários em que tudo mexia?
Em Lisboa nunca mais voltou a haver nada de semelhante depois de 1988. Em Paris, há as montras do Printemps e do Lafayette. Têm mais tecnologia, mas não são necessariamente mais bonitas. Este ano são assim:


Every cloud has a silver lining

Que é como quem diz, até este frio gélido tem um lado bom: a neve e os jardins branquinhos.


Reconheço que as crianças é que não devem estar nada contentes. Como a camada de neve é muito fina, torna-se gelo rapidamente, o que torna o piso muitíssimo escorregadio e perigoso. Portanto, este parque infantil na fotografia (e imagino que os outros) está muito bonito, mas fechado.

Eu é que ainda fico embasbacada cada vez que neva. Até ao ano passado, tinha visto neves glaciares nalgumas serras (ou sasonais no caso da Estrela), mas nunca tinha visto neve na cidade, e nunca tinha visto nevar.

25 novembro 2005

"Mariazinha fui em Marta me tornei"


"Vou daquilo que fui
pràquilo que serei"
......

"Meus olhos cansados
abrem-se espantados
prà vida de que me falavas
pra combater contra os donos de escravas
meus olhos verdes que te vão falar
e que tu vais ouvir

Mariazinha fui
em Marta me tornei
Vou daquilo que fui
pràquilo que serei"

25 de Novembro

Hoje, logo hoje, encontrei pela primeira vez desde que estou em Paris cravos vermelhos à venda. Encolhidos. Do frio e da neve, pensei eu. Mas depois lembrei-me... não, não é só da neve.

Há trinta anos "murcharam a nossa festa", o "mês de Novembro vingou-se". Não suportou a "esperança à solta", os "hinos feitos de alegria e de paixão", e nesse dia "foi um sonho lindo que acabou". Passou a haver "mentira e raiva a andar à solta".

Espero que o José Mário Branco tenha mais uma vez razão, que este sonho seja ainda para viver "quando toda a gente assim quiser", e que, como diz o Chico Buarque, tenham mesmo esquecido "uma semente nalgum canto de jardim". E enquanto esse dia não chega, "guardo renitente" cravos para mim, mas estão frescos, viçosos e muito vermelhos!


21 novembro 2005

Pivot

Sou só eu que acho obsceno que José Rodrigues dos Santos nos pisque o olho no fim do Telejornal?