10 junho 2006

Dia das Mentiras

1 de Abril - dia das mentiras mais ou menos óbvias e disparatadas em que ninguém acredita e toda a gente se ri.

10 de Junho (desde o desarrastão de 2005) - dia das mentiras estupidamente óbvias, completamente disparatadas, mas em que toda a gente acredita e que não têm graça nenhuma.

06 junho 2006

Escritoras, médicas, pintoras, directoras...

"(...) réformes qui prétendent féminiser la langue jusqu’à l’absurde :
« Puisque vous dites que cette soldate est écrivaine, dites donc aussi que le sentinel est un nouveau recru. Car la première est une personne et le second est un person. »"

(...) reformas que pretendem feminizar a língua ao absurdo: "Já que diz que esta soldada é escritora, diga também que o sentinelo é um recruto. Porque a primeira é uma pessoa e o segundo é um pessôo."»


Ora, uma escritora é uma mulher que exerce essa profissão, e já agora devíamos começar a dizer soldada mais vezes. Nós temos várias escritoras e não nos tem feito mal nenhum. Eles também têm, mas insistem em chamar-lhes "escritor" ou "senhora escritor".

Cá para mim, esta comparação é que é absurda, por dois motivos. Porque "feminizar" seria passar os plurais mistos para o feminino, obrigar os escritores a intitular-se "senhor escritora", etc.
É absurdo achar que o facto de admitir uma médica ou uma directora de qualquer departamento seja uma feminização. Feminiza o quê? A mulher que é médica? Ela já é feminina! A língua? Porquê, não deixa de haver "médico"!?

O facto de não existirem "escritora", "directora", "ministra", "professora" (ensino superior), "pintora", "doutora", "médica", etc., etc., etc., é não só absurdo, mas uma gigantesca demostração de machismo latente, cultural, impregnado na sociedade. Repare-se como todas se referem a profissões de algum prestígio social e hierarquia elevada. E como o acham natural, é um absurdo com tendência à perpetuidade.


Os franceses são muito zelosos (às vezes um bocadinho paranóicos) com a gramática da língua francesa e os anglicismos, mas tão permissivos nesta coisa do acordo de género, quando o género é feminino... A sacrossanta madre Academia Francesa encarrega-se destas coisas todas. É-lhes perfeitamente natural despedir-se à sexta feira com um sorridente "Bon weekend", mas chamar "professora" ou "doutora" às mulheres que a integram, nunca!

Não entendo. Pronto, que é querem, sou só uma mulher, estas coisas não são para mim, coitadinha, que tenho esta cabecinha de mulher.

05 junho 2006

De volta, ainda no país das maravilhas

Cá estou de novo em Paris, depois de Bourges, do festival e do que pude ver da cidade. É realmente uma cidadezinha especial: tem o centro medieval recuperado, com as casas feitas com aquela estrutura de madeira e a catedral património da Humanidade. Vi o Marais, que é um terreno pantanoso na confluência de 3 rios, e que está transformado em várias pequenas hortas, tudo aquilo muito regado com muitos canais cheios de bicharada.

E mais uma vez neste país, auto-denominado exemplo europeu da laicicidade, foi hoje feriado: o Pentecostes.

Mentiras que vão tecendo a nossa miséria

PESO DOS FUNCIONÁRIOS PÚBLICOS NA POPULAÇÃO ACTIVA
( Dados de 2004)
(Fonte EUROSTAT, publicado no Correio da Manhã na semana passada)

* Suécia .. 33,3%
* Dinamarca ..30,4%
* Bélgica .. 28,8%
* Reino Unido ..27,4%
* Finlândia ..26,4%
* Holanda .. 25,9%
* França .. 24,6%
* Alemanha .. 24%
* Hungria .. 22%
* Eslováquia ..21,4%
* Áustria .. 20,9%
* Grécia .. 20,6%
* Irlanda .. 20,6%
* Polónia .. 19,8%
* Itália .. 19,2%
* República Checa ..19,2%
* PORTUGAL .. 17,9%
* Espanha .. 17,2%
* Luxemburgo .. 16%

02 junho 2006

Bon weekend!

Amanhã vou para aqui: Bourges!

Espero que o Synthèses me deixe tempo para ver estas coisas todas...






O socialismo face à delinquência

A pré-candidata do PS francês às presidenciais do próximo ano, Ségolène Royal, foi ontem ao departamento (concelho) onde se verificaram a maior parte dos distúrbios de Novembro último, e que voltaram a repetir-se em menor escala na última semana. E que se lembrou de dizer? Nada mais nada menos do que a solução socialista para o problema da violência e delinquência é o aumento da segurança e instalações militares para os jovens problemáticos.
Claro que recebeu logo os maiores elogios: o Sarkozy disse-lhe que estava no bom caminho, e da FN mandaram dizer que a lepenização ultrapassa até as melhores expectativas. Quem não achou piada foi o companheiro da pré-candidata, e líder do partido a que ela também pertence, François Hollande. Disse que enfim... um enquandramento para os jovens sim, mas militar é que já não concorda muito...
A senhora até chega a acertar, quando diz que a pobreza e a violência costumam andar ligadas, mas coitadinha, não consegue é raciocinar a partir daí e tirar uma conclusão consequente.



Mas há quem tenha conseguido. A 16 de Junho de 2003 ouvi uma entrevista de que nunca mais me esqueci e cujas ideias principais me vêm à mente muitas vezes. Tratou-se de uma edição do programa "Pessoal... e Transmissível" da TSF, em que Carlos Vaz Marques entrevistava Benedita da Silva. Felizmente a TSF guardou-a na internet e é facilmente audível. No início do governo de Lula no Brasil, Benedita da Silva foi Ministra da Assistência e Promoção Social. É pena ter ficado tão pouco tempo no posto.

Depois de falar da violência física, que diz ser um problema importante, diz que há outra violência que são quase 50 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza e quase 30 milhões que não comem. À pergunta "uma e outra estão ligadas?", responde que "uma acção contribui para que a outra aumente. (...) Combater a pobreza você está prevenindo. Porque não é o facto de ser pobre que torna a pessoa violenta, mas já é uma violência uns terem comida e o outro não. Já é uma violência uns terem emprego, dinheiro e o outro não."


Benedita da Silva percebeu o problema. Mas será que é preciso ter sido excluída, miserável, ter passado fome e vivido uma vida inteira numa favela carioca para perceber isto?

Mais depressa se apanha um mentiroso que um coxo

E quando o mentiroso insiste numa argumentação coxa, nem vos digo! É um instantinho. Aliás... o melhor, é que os próprios se fazem apanhar.

Eu explico. Vi um artigo sobre um estudo comparado sobre a competitividade, e fui ver a coisa propriamente dita.

Ora, e a propósito de competitividade, o que é que nos martela os ouvidos?

- que tudo a que chamamos direitos, são afinal privilégios e têm que ser reduzidos/ extinguidos;
- que a nossa força de trabalho é caríssima e isso nos tira competitividade;
- em França, acrescenta-se a este argumento que há demasiadas greves; e que há fugas de cérebros para o estrangeiro;
- sobretudo, martelam-nos com o modelo ultra-liberal americano e inglês como o paraíso a atingir.


Este estudo cobre as economias de França, Reino Unido, Holanda, Itália, Alemanha, Japão, Singapura, Estados Unidos e Canadá, e revela que afinal a terrível, infernal, anti-liberal, conservadora e atrasada França, cujos trabalhadores são profundamente estúpidos e não percebem nada do que se tenta fazer por eles, é o país europeu que atrai mais investimento. Está em terceiro lugar, depois de Singapura e Canadá, e antes dos "paraísos" de competitividade EUA e UK.

Mas não acaba aqui: um dos factores que leva a esse lugar priveligiado são precisamente os custos ligados à força de trabalho.

"De quem é este estudo tão altamente tendencioso?", perguntarão alguns. Preparam-se talvez para ouvir PCF, ATTAC, BE, algo assim. Pois deixem dizer: KPMG. Sim, essa mesma, a consultora multinacional, e até têm bem afixada a lista dos patrocinadores do estudo, constituída por organismos oficiais e estatais dos países visados e várias empresas multinacionais.

Parece que formar as pessoas, dar-lhes um sistema de saúde eficaz e pagar-lhes decentemente ainda traz alguns benefícios. Será que alguém enviou este estudo aos governos que o encomendaram?

"Quando eu era Primeiro-Ministro:"

"Deixem-nos governar, deixem-nos governar!"

"Eu não sou o Clinton"

"Não me venham pôr ideias à minha Maria, que ela ainda está a lavar a loiça."

E assim andamos todos contentinhos, porque temos exactamente aquilo que escolhemos.

01 junho 2006

A Ministra sem Educação

A ministra da Educação foi escolhida a dedo, undolitá e fica a Maria José Rodrigues. Agora vem dizer e acho que repetir que a culpa do insucesso escolar se deve aos professores. Bem sucedida a pior campanha de difamação da classe profissional de que há memória (nem com a Ferreira Leite!) afinal era preciso preparar a opinião pública para os cortes e ataques a direitos considerados até há pouco tempo invioláveis. Mas já a campanha venceu em quase todas as frentes e a senhora continua, a título desconhecido a fazer considerações da pior espécie. Quem já trabalhou em escolas no ensino público sabe que o insucesso escolar é um problema social grave, problema para o qual docentes têm vindo a chamar a atenção há anos. Entretanto, tanto nos governos ps como nos psd, sairam decretos a facilitar a transição de anos u níveis, como a tentar esconder a vergonha nacional. Mais medidas não se viram ( se considerarmos esta uma medida). Entretanto as escolas hoje podem escolher os seus alunos, sim as escolas públicas escolhem os alunos que entram nos seus estabelecimentos, e existe uma escola secundário do Restelo, por exemplo, com um bom lugar no rankin, que selecciona os alunos pelas notas que trazem de trás. Há aquelas escolas onde há docentes que apesar do ME ter tornado possível essa aberração não limitam a entrada a alunos comportando-se como uma escola pública. Mas se esta escola ou aquela quiser expulsar um aluno porque apontou uma arma a colegas e professores e porque a sua família veio fazer uma espera a alguns professores o ME pode obrigar a escola a aceitar de volta o menino através dos seus serviços regionais. Penso que fica tudo dito em relação à autonomia das escolas.
A escola podia ser um espaço de combate às fortes desigualdades sociais, ou seja podia combater o insucesso escolar, tivesse para isso meios, e estes meios nem serão sempre materiais, provavelmente os mais importantes nem serão este tipo de bens. O mais importante é ter bons profissionais, mas se tivermos uma classe profissional mal tratada continuamente, dois exemplos rápidos: comissões ministeriais para aprovar os manuais! Imagina-se as centenas de pessoas que será preciso contratar para tal trabalho? E se é o professor que conhece a matéria e serve para a ensinar já não serve para escolher o manual que vai usar?! Faz sentido? Faz sentido haver no ME quem receba queixas sobre determinados manuais que possam não cumprir da melhor forma com os currículos (e isso já existe); segundo: pais vão avaliar professores e essa avaliação serve para a sua progressão na carreira! Estes dois pequenos exemplos ilustram bem como não será possível para já haver mais sucesso escolar e como não se prevê para Portugal nenhuma mudança de paradigma (país com menos licenciados, país com menos gente escolarizada....na ue)
Face a isto ainda temos de ouvir a Ministra ir dizendo o que lhe apraz, o que nos vale é que de facto os professores portugueses têm muito mais educação do que a senhora e continuarão o seu trabalho o melhor que forem capazes.

Também quero um emprego em Estrasburgo

Périplo é o nome de um documentário sobre o Mediterrâneo, a história das suas gentes, feito por Miguel Portas e Claúdio Torres. A ideia parece gira mas dá facilmente para concluir que o Parlamento Europeu deixa muito tempo livre ao único deputado do BE. A questão é: deixará o Parlamento Europeu bastante tempo livre a todos os deputados (inclino-me para esta opção) visto os seus poderes estarem de facto circunscritos a muito pouco ou o Bloco de Esquerda ainda não decobriu que fazer na Europa com este deputado?