28 abril 2006

Rua Mumia Abu Jamal

É um dia histórico no apoio a este prisioneiro político nos EUA, e cidadão honorário de variadíssimas cidades mundiais, incluindo Paris, Veneza, Saint-Denis, etc. O Presidente da Câmara Didier Paillard (o mesmo que tomou a iniciativa do referendo de que falei há dias) é quem tomou a iniciativa e vai presidir amanhã à inauguração.
É uma prenda de aniversário para Mumia, que está preso e condenado à morte há 23 anos.

Versão oficial: porque matou um polícia, facto desmentido pela confissão do assassino, e por várias provas forenses e de balística.
Versão real: porque fez o seu trabalho de jornalista e relatou a violência racista da polícia dos EUA.

Hush!

Yo-Yo Ma é um dos melhores violoncelistas de sempre, dotado também de uma dose razoável de bom humor. Bobby McFerrin tem um aparelho vocal capaz de tudo. Nem lhe posso chamar voz, porque não se trata só disso. Vai muito além.
Este disco Hush é uma maneira destes dois se divertirem à brava e ainda nos convidam para a festa!

Ali ao lado fica a Musette de J. S. Bach (com uma surpresa do Jimmy Hendrix), e depois o Vôo do Moscardo de Rimsky-Korsakov. Atenção, porque tudo o que se ouve é um violoncelo e o Bobby McFerrin. Tudo o que ouvirem que não seja o violoncelo, mesmo que não pareça humano, é! Por alguma razão ele se auto-intitula Robot McFerrin. Impressionante!

May Day contra a precariedade


Esta é uma iniciativa mundial contra a precariedade. Organiza-se em cerca de 20 cidades na Europa e EUA.
E como a organização explica melhor do que eu do que se trata, aqui vai a tradução do essencial.

O que é o May Day?

A May Day parade é a grande manifestação aberta, reivindicativa e festiva de todos os precários. Um momento de auto-organização, de encontros e convergência. O habitual "Dia do Trabalhador" já não é suficiente para dar visibilidade às múltiplas formas de precariedade. Queremos fazer do 1º de Maio uma festa dos precários e trabalhadores dos nossos dias. Em 2006 este momento de visibilidade das lutas dos precários será realizado em cerca de vinte cidades europeias e nos EUA. Estão todos convidados a participar.



Quem somos?

Desempregados, beneficiários do rendimento mínimo, assalariados precários, sem emprego, independentes, free-lancers, subsidiados, doentes, deficientes, sem contrato, estagiários, estudantes, trabalhadores temporários, sem-papéis, trabalhadores/as do sexo, às vezes tudo ao mesmo tempo. Somos precários em luta.


O que queremos?

Ter alojamento, onde dormir, aprender, fundar as famílias que desejamos, produzir e aceder a uma informação e cultura diversificadas, traocar saberes livremente, comer bem, ter cuidados de saúde, criar todas as formas de riqueza, deslocar-nos e instalar-nos livremente, participar na vida das cidades, criar novos espaços públicos e novas formas de viver em sociedade.


Nos vies ne sont pas négociables.


Ora, Portugal tem tantos ou mais problemas de precariedade que a restante União Europeia. Além da precariedade legalizada, existem muitas formas de contornar a legalidade e iludir (ou escapar) a Inspecção do Trabalho. Quantas vezes essa forma não é o simples recurso à ameaça velada de um despedimento, ou pior, de uma denúncia ao SEF... Quantas mulheres tiveram que planear a gravidez de acordo com as conveniências do chefe, ou mesmo pôr essa ideia completamente de lado? Quantos portugueses podem garantir sem dúvidas neste instante que ainda terão emprego no próximo mês? E quantos cumprem apenas o horário previsto no Código de Trabalho, têm as férias previstas legalmente, os ordenados legais e justos, as horas extraordinárias pagas pela tabela... quantos?


Para quando o May Day Lisboa?
As nossas vidas não são negociáveis.

Ei-lo, o livro!

El burlador de Sevilla
y convidado de piedra
Comedia famosa del maestro Tirso de Molina

Esta é mais uma versão da famosíssima e muitas vezes reescrita história de D. Juan Tenorio. Mas desta personagem todos sabemos mais ou menos qualquer coisa. Assim por alto, é um tipo incapaz de obedecer a quaisquer convenções sociais (e não só as de fidelidade), não respeita regras nem pessoas. Depois, cada autor faz a sua versão, e como eu não conheço nem um terço (talvez nem um quarto) dos D. Juans da literatura, fico por aqui.


O me encantou neste livro é o deslumbre com que vêm a cidade (espanhola na época) de Lisboa. O texto é de cerca de 1630 (talvez um pouco antes) e nele convivem várias personagens e acontecimentos de épocas diferentes. A páginas tantas o Rei de Castela manda um nobre a Lisboa. Claro que quando Lisboa pertenceu a Espanha, já esta estava unificada e o Rei seria de Espanha e não de Castela... E que notícias traz D. Gonzalo de Lisboa?

"La mayor ciudad de España (...) Es Lisboa una otava maravilla."

Descreve o percurso do Tejo entre duas serras (Sintra e Arrábida), e ainda o que parece outra cidade sobre o rio, tal o número de embarcações que ali estão. Este monólogo de D. Gonzalo é um hino de amor a Lisboa e à sua magnificência.
Os Jerónimos, o Rossio, a Rua Nova dos Mercadores e a riqueza destes, o Terreiro do Paço e o Paço, "edifício de Ulisses", assim como a variedade, abundância e riqueza das comidas, e a neve da Serra da Estrela...

"Mas, ¿qué me canso?
porque es contar las estrellas
querer contar una parte
de la ciudad opulenta."

"Mas, para que me canso? Porque é como contar as estrelas, querer contar uma parte da cidade opulenta."

Um bom português é um português morto!

Diz o PM Sócrates, e já dizia há mais tempo o PR Cavaco. E, parece-me, a ver pelas votações que estes dois senhores tiveram, diz a grande maioria dos portugueses.

«(...) o crescimento das despesas com pensões é o que mais seriamente questiona a sustentabilidade do modelo social (...) E é sabido que ele deriva, fundamentalmente, do aumento da esperança média de vida», diz Sócrates.
Há anos, Cavaco explicava que um trabalhador é um custo insustentável porque recebe salário. Um reformado é pior, porque recebe pensão e nem sequer produz. Dizia ele que "resta-nos esperar que (o trabalhador) morra". Especialmente se fôr o bode expiatório de toda a crise: o funcionário público.

Claro que ninguém explica que Portugal é dos países europeus com menor peso da função pública no total da população activa, ou que precisamos de mais funcionários nos serviços públicos (que toda a gente diz que são lentos, porque falta pessoal, mas depois também dizem que há demasiados funcionários - vá-se lá perceber a lógica da cabeça de um português...), ou de mais médicos no centros de saúde, nos hospitais, e nos (quase?) extintos SAP, ou de mais enfermeiros. A mim parece-me estranho que os dois países mais "paranóicos" acerca do peso da função pública sejam precisamente dois dos que estão abaixo da média europeia: Portugal e França.


Outra coisa que achei curiosa hoje ao ouvir o debate na Assembleia, é que o discurso do PM Sócrates (pretensamente socialista) parece copiado tal e qual do discurso do PM Villepin (UMP- direita). Tirou "CPE" e pôs "reformas", mas o discurso é o mesmo. Sr. Sócrates, folgo em saber que sabe francês e que sabe traduzir. Acho no entanto que o país lhe paga para escrever discursos originais, não? E já agora, visto que até sabe fazer umas traduções jeitosinhas, não quer juntar-se aos tradutores da ATTAC? Andamos sempre a precisar de quem traduza para português, e o senhor podia ser que aprendesse a dizer alguma coisa de jeito. Ou a ter algum sentido crítico... ou a dizer "qualcosa di sinistra", já que diz que é socialista.


Não posso presumir que os portugueses estejam descontentes, seria desonesto. As eleições são bem recentes e foram livres, e tanto Sócrates como Cavaco são e eram já bem conhecidos de todos. Espero que estejam felizes de terem governantes que não sabem gerir um país, preferem dirigir um cemitério. Sempre que ouvirem o desejo do Sócrates ou do Cavaco de os ver mortos, devem sorrir e pensar "que bem que votei, que feliz que estou, era mesmo isto que eu queria ouvir do meu PM, e que honra poder ter o PR a desejar que eu morra".

Ainda se fossem madeirenses, onde as eleições são «"livres"» em vez de livres... mas no continente e Açores, nada de lamúrias e sorrisinho na cara!

27 abril 2006

Lista negra!!!

Na Sorbonne foi estabelecida um lista negra por ordem do reitor. Alguns alunos são proibidos de entrar na universidade, mesmo para assistir às aulas. Não sei quando foi a última vez que a França viu medidas destas. Terá sido sob o governo de Vichy na chamada França livre, imagino. Ou sob os nazis na França ocupada...
É o governo Villepin-Sarkozy-Chirac a fazer História.

Livro desta semana

O livro desta semana está atrasado, já repararam... É que implica algumas releituras: os livros que tenho aqui são coisas que já li há bastante tempo e tenho que recapitular para poder dizer alguma coisa sobre o dito livro.
Tenham paciência e aguardem mais um pouco. Aqui está sol e para a semana volto lá para cima, para a terra do tempo imprevisível.

26 abril 2006

25 de Abril lá longe

Foto: Libération

No Nepal voltam a soprar ventos de Liberdade. Parece que para ficar definitivamente. Assim o esperemos. Será, que eu saiba, o terceiro país a festejar este dia, que parece mágico para as revoluções e libertações.

Em 1945, a 25 de Abril, a Resistência Italiana conseguiu vencer a sua luta e libertar Milão dos invasores nazis e dos fascistas.

Em 1974 ouviu-se o Zeca cantar a "Grândola" na rádio portuguesa e pouco depois todos lhe respondiam: "Vitória, Vitória".

Como será que se diz "Vitória" em nepalês?

24 abril 2006

Amanhã!


Obrigada Otelo, obrigada Salgueiro Maia. Obrigada a todo o MFA.
Faz 32 aninhos a nossa Liberdade!

Já está na altura de ganhar maturidade e de a vermos com normalidade. Comemorar o 25 de Abril também é ir às festas que se organizam por todo o lado, também é ensiná-lo às novas gerações, e relembrá-lo. É sobretudo não esquecer o que se fez, o que se teve quase a conseguir, e perceber que nada disso é utópico.

Mas acima de tudo, é perceber que a Liberdade se constrói no dia-a-dia. A Liberdade é podermos ter uma escola na nossa terra, é podermos ter filhos portugueses em Portugal, e podermos garantir-lhes um jantar na mesa todos os dias, uma escola, uma casa, um médico durante toda a vida. A Liberdade é acima de tudo, nos nossos problemas de hoje, dizer ao governo quando BASTA! e fazê-lo recuar quando é necessário. Temos Liberdade para isso, o 25 de Abril deu-nos essa Liberdade. E se a festejamos neste dia, porque é que não usufruímos dela todos os dias? A Liberdade é também a responsabilidade e o dever de Solidariedade. Talvez muitos de nós tenhamos estas garantias para os nossos filhos. Mas temos a responsabilidade de nos solidarizarmos com quem não as tem, e de as exigirmos em nome de quem às vezes nem pode fazê-lo, por não perder as poucas migalhas que lhe restam.
A Liberdade é como o voto, um direito e um dever.

VIVA A LIBERDADE!
25 de ABRIL, SEMPRE!

Precariedade - rentrée ou Abril de 2006 em Paris

Hoje recomeçam as aulas na zona de Paris. Na Sorbonne (Paris IV) e em Nanterre (Paris X), as AGs decretaram a ocupação e bloqueio das respectivas universidades.
O Presidente da Sorbonne, ordenou o lock-out logo de seguida. Pelas descrições (sim, que eu ainda estou em Lisboa, não vi nada), a polícia ainda invade (ou voltou a invadir) o Quartier Latin. Os pedidos de apoio aos grevistas e à ocupação sucedem-se.
Em Nanterre, o Presidente incitou os estudantes contrários ao bloqueio a entrar pela violência. Sempre gostava de saber como é que estes tipos chegam a Presidentes de universidades, não sei se são nomeados pelo ministério ou eleitos pela universidade...
Continuo sem notícias de Paris VIII, era suposto o lock-out acabar hoje, mas ainda não sei de nada...

Quem estiver em Paris, hoje às 21h na Sorbonne.
A informação continua disponível nas páginas ali à direita.

Agora, se me dão licença, vou para a rua, que vem aí o 25 de Abril!!!


Adenda: a Sorbonne foi evacuada pelos CRS cerca das 21h.

Esta juventude que ganha

Ainda o CPE: um artigo da "Politis" desta semana, que explica bem porque é que esta cedência do governo, ainda que parcial, é já uma vitória; e também quem é esta juventude, que os comentadores dizem estar despolitizada, mas que de há 20 anos para cá tem feito recuar cada governo, cada tentativa de legislar a precarização. Mesmo quando o governo diz que "não é a rua que governa"!