31 março 2006

O Sonho ao Poder!


Mário Viegas
10 Novembro 1948-1 Abril 1996


Onde vai Chirac?



Chirac e Villepin encontraram-se hoje de manhã para combinar o que o Presidente diria à noite; a responsabilidade é, portanto, dos dois.

No discurso desta noite nada de novo. A mesma manipulação que nas últimas semanas fez crescer o número de manifestantes na rua, a mesma falta de respeito pela população, a minoração de 4,5% da população (e 67% que se mostram contra a lei nas sondagens), tratada como um bando de terroristas burros. Chirac e Villepin, do alto dos seus cadeirões, gozam com quem cá em baixo não tem poder. Ou é o que eles julgam... A "democracia" mantém-se o kratos (poder, força) de uns quantos eleitos e nomeados, contra a manifesta vontade do dêmos (povo).

Já há uns dias que a raiva vem crescendo, ouve-se uma voz cada dia mais alta. Do sussurro passou-se ao murmúrio, e daí chegaremos ao grito... Há o problema do "Chômage, Précarité, Exploitation", de toda a pretensa "igualdade de oportunidades"; mas cada vez mais, dá raiva tanta soberba, torna-se insuportável que nos tomem por parvos, que, entre um passeio na Alemanha e um jantar com o Rei de Espanha, ainda tirem tempo para gozar com quem trabalha.

Em 1789 os franceses determinaram que haveria cidadãos eleitos de entre o povo, que os representariam. Estes governantes esqueceram tudo; não se vêem como parte do povo e não o representam. Não são citoyens, são apenas élus.
Será que veremos um 14 de Julho em 2006, uma tomada do Eliseu ou Matignon? Uma nova ponte, como a que foi construída com as pedras da Bastilha e que dá acesso à Assembleia Nacional (e que era suposto perpetuar nos deputados a memória do que acontece a quem governa contra o povo)?


4avril

Prisão de um jovem sindicalista

Karl Stoeckel, dirigente sindical da UNL - um sindicato de estudantes do liceu, foi preso durante uma pequena manifestação pacífica, desta vez sem confrontos nem "casseurs", segundo os testemunhos. A polícia interveio mesmo assim e prendeu várias pessoas.

Esta é a entrevista que deu quando foi libertado.



As manifestações de hoje ocorreram na sequência das ordens de ontem do Ministro da Educação: os directores dos liceus foram incitados a acabar com os bloqueios, empregando para isso a violência necessária.

30 março 2006

"Pela memória"

Ontem a Isabel Faria escreveu este post no Troll. Surgiu então a ideia de criar uma corrente "Pela memória". A ideia é enviarmos e-mails para o endereço da empresa - pacododuque@temple.pt - a exigir o respeito pela história e a memória do país. Entupir-lhes a caixa de correio com a denúncia de publicidade enganosa e a "lembrança" da história do edifício enquanto sede da PIDE.

Proposta de texto:

Ao consultar a página na Internet deparei-me com algumas incorrecções que urge corrigir.
Na página dedicada à história do edifício, os senhores mencionam apenas os acontecimentos até 1640. Como sabem, estamos em 2006 e, entretanto, houve História naquele edifício. Como também sabem, o edifício foi sede da PIDE-DGS, polícia política do regime fascista. Até 1974 era para aquele edifício que eram levados os presos, para serem interrogados sob tortura. Como é público, os maus-tratos levavam, não raramente, à morte.
Omitir as mortes e as torturas é publicidade enganosa. Naquele lugar não houve apenas banquetes e festas de casamento. O fascismo existiu. A PIDE-DGS torturou e matou.
Exigimos o respeito da História do País e da memória de quem ali sofreu e morreu.

A luta continua!

O Conselho Constitucional considerou que a lei está plenamente de acordo com a Constituição Francesa.

Simultaneamente, na reportagem da rádio, era explicado que o Conselho Constitucional (e não Tribunal Constitucional) é constituído por "ilustres" nomeados pelos vários órgãos de poder (Presidente, Assembleia, etc.). Um dos tais "ilustres" é o sobejamente conhecido Giscard d'Estaing, que se deu ao luxo de não se deslocar para deliberar sobre este assunto menor. Em vez de 10 votos, foram portanto 9. E a avaliar pelo gabarito deste nomeado, imaginem-se os restantes...

Segundo os sindicatos, os procedimentos legais não acabaram. Mesmo considerando que a lei "da igualdade de oportunidades" (onde se inclui o CPE) está de acordo com a Constituição, consideração apenas possível se se ignorarem vários artigos desta, a lei não respeita diversos tratados internacionais assinados pela França.

A luta nos trubunais continua.
Na rua segue já terça-feira, dia 4 de Abril. Greve e manifestações.

29 março 2006

O Tigre e a Neve

Não quero repetir-me, mas como passou muito tempo...
Vi hoje no jornal que este filme vai agora estrear em Portugal. Não percam!

E os sonhos, sonhos são

Calderón de la Barca
La vida es sueño
1636




SEGISMUNDO:
"Sueña el rey que es rey, y vive
con este engaño mandando,
disponiendo y gobernando;
(...)
y en el mundo, en conclusión,
todos sueñan lo que son,
aunque ninguno lo entiende.
(...)
¿Qué es la vida? Un frenesí.
¿Qué es la vida? Una ilusión,
una sombra, una ficción,
y el mayor bien es pequeño;
que toda la vida es sueño,
y los sueños, sueños son."


Foto: actores de La Barraca que representaram, sob a direcção de Federico García Lorca, o auto sacramental La vida es sueño (1932).

28 março 2006

A greve e o governo


O Metro esteve hoje um pouco mais lento, mas nada de especial. Houve outras áreas muito mais atingidas: as escolas, a rádio, os jornais, os comboios, os aviões e aeroportos. Os quiosques, sem jornais para vender, estiveram fechados.

O governo está já dividido. Claro que ter um regime presidencialista em que Presidente, Primeiro-Ministro, e nº 2 são concorrentes entre si a umas eleições muito próximas, não pode dar coisa boa, é impossível!

O Sarko, que é fascista e muito inteligente, disse hoje que o governo deve suspender a lei para negociar. Percebeu que os manifestantes iriam ser já uma percentagem significativa da população, e o salário de presidente deve ser bem melhor que o de ministro. Além disso, num regime presidencialista, a lei pode ser retirada e voltar depois até em modalidade bem pior.

O Villepin continua a querer negociar, fazer pequenas mudanças na lei e não admite retirá-la de forma nenhuma. Insiste na "pedagogia"... aparentemente somos todos completamente estúpidos e não entendemos a lei. Tem ainda a curiosa noção de que as manifestações são anti-democráticas. As leis são feitas pela Assembleia e o Governo (neste caso sem discussão) e o povo não tem nada a dizer.

Quinta-feira há novidades: o Tribunal Constitucional vai pronunciar-se sobre a validade da lei, por esta discriminar os trabalhadores em função da idade.

Nalguns países do resto da Europa há manifestações de apoio a este movimento frente às embaixadas francesas. Soube há pouco que em Lisboa houve uma manifestação da CGTP contra a precariedade.

Os sindicatos não põem a hipótese de desmobilizar, o movimento aumenta a olhos vistos, e internacionaliza-se. Amanhã reúnem novamente para decidir o que vão fazer. Fala-se em greve geral: a última vez que foi convocada uma greve geral em França foi em 1944, para exigir a libertação de Paris.

A ver vamos.

Pelo menos 4,5% da população francesa saiu à rua!

2,7 milhões de pessoas manifestaram-se hoje em França (segundo a CGT serão mesmo 2,9 milhões - 4,8%).

Choveu em Paris durante quase todo o tempo, às vezes com bastante força. Felizmente a temperatura era a ideal para estas coisas: temperada. Sob a ameaça da polícia do Sarko, sob a ameaça de quem quer causar distúrbios que só favorecem o governo, sabendo que também estes confrontos têm vindo a aumentar, 2,7 milhões de pessoas desceram à rua organizadamente, desfilaram em Paz, e responderam "Résistance!"

Hoje não me arrisquei, perdi por isso alguma visão do conjunto da manifestação. Integrei-me no desfile da ATTAC, porque têm acontecido ataques a pessoas que desfilam isoladas, sobretudo para roubar. De qualquer modo, durante mais de metade do desfile havia, pelo menos aparentemente, muita calma. Cada organização tinha os seus seguranças, e nas margens do desfile não vi nada de especial. Ou melhor, uma senhora tinha posto na sua janela um cartaz que dizia algo como "Contra o CPE! Continuem. Visto aqui de cima é maravilhoso!".
Mais perto da République começaram a aparecer os tais pequenos grupos à margem, que conseguem integrar o cortejo. São miúdos em idade escolar, podem confundir-se facilmente com alunos do liceu que também desfilam.
Na République o cortejo desmobilizava logo do lado direito, nas duas primeiras ruas logo ao lado de onde vinha ainda o resto da manifestação. Os seguranças das organizações faziam um cordão bloqueando o resto da praça, de onde já vinha um vago cheiro a gás, e muito barulho. As entradas do Metro estavam fechadas e naquela zona a polícia estava bastante calma.
Visto daquele canto não parecia estar a acontecer nada de especial, mas era muito difícil ver o resto da praça, tal era a maré de gente que ali estava.

Mais uma nota: a caminho do Metro, num boulevard cheio de carrinhas da polícia, passei por um soldado, que dava a entender que o Sarko chamou também o exército.

Postas estas considerações, o importante:


Pelo menos 4,5% da população francesa saiu à rua!

27 março 2006

Viva a mangerona!

D. Fuas, olha só o que encontrei!


Ok... não encontrei agora, mas guardei para hoje.

24 março 2006

Bluff

Foi o que fez Villepin. Afinal só quis fazer perder uma tarde aos sindicatos... não se adiantou nada, nem os deixou falar das propostas que tinham. E no fim, o mesmo discurso arrogante de sempre para os jornalistas. Fica tudo na mesma, greve e manifestação dia 28.