27 novembro 2020

Melhores filmes vistos em 2019

 Antes que o ano, este ano, mais rápido e súbito que todos os anos (esperamos) termine, ainda faltam os filmes com mais estrelinhas vistos em 2019










23 novembro 2020

The Act of Killing - 2012

 



Comecei ontem a ver o The Act of Killing, documentário de 2012 do norte-americano Joshua Oppenheimer, ainda não terminei mas o desconforto e alguns problemas com esse desconforto levaram-me a este texto 

The Act of Killing: don't give an Oscar to this snuff movie

24 dezembro 2018

Melhores fimes vistos em 2017

Estaremos realmente no século XXI? Passaram 19 anos desde que andámos divertidos com o bug do Milénio. Se não fosse pelos desaparecidos e pelos que nascem agora e ontem e vimos crescer o tempo não tinha nenhuma propriedade ou substância que nos fizesse acreditar que mais um ano ou alguns passaram. Ainda que 19 anos carregados de velocidade e intensidade, na comunicação, na tecnologia, na ansiedade crónica individual, nada ainda nos diz que este é já um novo século.

Com um ano de atraso os melhores filmes que vi em 2017.













07 outubro 2017

Melhores filmes vistos em 2016

Muitos filmes vistos em 2016. A maioria, como habitual e porque o tempo poucas vezes é nosso, não são de 2016 nem próximos. As escolhas.



                                                        Paula - Eugenio Canevari, 2015




25 abril 2017

O património da memória e do esquecimento

Por Lucinda Fonseca Correia
Arquitecta Artéria Arquitectura
"Na vida de hoje, o mundo só pertence aos estúpidos, aos insensíveis e aos agitados. O direito a viver e a triunfar conquista-se hoje quase pelos mesmos processos por que se conquista o internamento num manicómio: a incapacidade de  pensar, a amoralidade e a hiperexcitação."
Fernando Pessoa, Livro do Desassossego
Arquitectura é transformação. Arquitectura é interferência com a vida. Arquitectura é recordação e esquecimento. Arquitectura é permissão e interdição e por isso é fundamentalmente ordem. A Arquitectura torna-se “política” 1 na medida em que o seu exercício resulta da afinidade óbvia entre espaço e poder, de outro modo, não se legitimaria como uma profissão liberal de interesse público.



Uma arquitectura de risco

Num primeiro plano, a Arquitectura é a construção de um cenário onde o jogo cultural se desenrola, pois, em determinado sentido enquadra, fixa e torna significativa a vida e as relações humanas. Acresce que esse sentido depende sempre de um sistema de valores “culturais”. Sem Arquitectura certamente poríamos em causa a nossa identidade como protagonistas de uma ficção a que chamamos Mundo. Aliás, a Cultura faz isso mesmo: inventa o mundo como cenário 2. E ao inventá-lo dita os termos em que estamos aptos para lidar com ele. É compreensível, pois, que ofereçamos sempre resistência a qualquer alteração que ponha em causa a nossa identidade. Por outro lado, o que a Arquitectura faz é artificializar o espaço natural de modo a criar dispositivos que acolham a vida em sociedade. Todavia, a transformação do habitat natural em artificial já não se opera sem riscos 3. Tal facto, paradoxalmente, legitima e torna urgente uma revisão profunda dos termos em que aquele sistema de valores regula as nossas acções transformadoras sobre o mundo. A consciência do risco começou já a atormentar-nos. Subitamente, somos confrontados com a realidade dos factos: quando é que o efeito de estufa se torna irreversível?; quanto tempo falta para que a vida nos oceanos se extinga?; o que resta da água potável no mundo?; como é que se detectam definitivamente os sintomas da ocorrência de um colapso geral, nos sistemas de suporte da vida no planeta? Temos todos noção disto mas “olimpicamente” ignoramo-lo.
Ainda que não queiramos admiti-lo, não estará também, por analogia (e cumplicidade) a Arquitectura a “colapsar”? E esse colapso dar-se-á no sentido desta deixar de cumprir o seu objectivo essencial: hospedar a Humanidade. Já sabemos o que custa ao Ambiente construir, transformar e manter o parque habitacional terrestre. De facto, esses cálculos estão feitos: no final de cada ano constatamos que gastámos quase o dobro dos recursos produzidos pelo planeta, durante esse mesmo período 4. Nestes dados estão incluídos os efeitos da actividade construtiva humana, onde se inclui também a Arquitectura. Assim, por uma questão de justiça, os arquitectos devem pois sentar-se no divã do terapeuta e rever os passos da sua carreira dos últimos 200 anos. E para fazê-lo é necessário estabelecer critérios, à luz dos quais poderá ser levada a cabo uma auto-análise útil para os negócios do mundo. Todos aguardamos respostas, receitas, revelações, iluminações, como curto-circuitos de um raciocínio que tarda a emergir por entre os devaneios quotidianos que, fundamentalmente, enfatizam a “criatividade” ilimitada dos arquitectos (e outros projectistas). No entanto, este paradoxo só se desfará se esse exame crítico do passado for honesto, franco e desinteressado. 

O valor da memória

Para além das questões ambientais, no sentido amplo do termo, a necessidade de manutenção desse cenário dita, em segundo plano, a lógica dos “critérios” de quem intervém no construído, pretendendo consertar o velho. Aqui inscreve-se, com toda a propriedade, a ideia de intervenção no património. Em primeiro lugar, porque se trata concretamente de um património que não se pode transformar a todo o custo ou sobretudo à custa da nossa memória. Em segundo lugar, porque o efeito pedagógico da manutenção desse património deve suplantar quaisquer vantagens económicas ou políticas.

E, porque nos interessa defender o património? Como suporte privilegiado da memória colectiva, o património veicula aspectos essenciais da nossa identidade. Daí também valer para a Arquitectura a ideia de monumento 5 enquanto receptáculo daquilo que é digno ser lembrado.
Por outro lado, não devemos esquecer que os edifícios antigos, com qualidade, não morrem – apenas parecem resistir aos usos, tantas vezes insensíveis e ignorantes que lhes foram impostos pelos diferentes tempos. Trata-se então de gerir modos de habitar? Sejamos precisos: como é que costumamos prevenir um “mau” uso, ou seja, aquilo que consideramos ser uma utilização indevida de um edifício com carácter?

Partimos do princípio segundo o qual um edifício com “carácter” é aquele que soube preservar, com grande clareza, uma memória institucional 6. Isto acontece tornando os edifícios inacessíveis ao uso – musealizando-os – ou, pelo contrário, tornando-os acessíveis a um novo uso. Só o facto de lhes alterarmos a função e de os reformarmos como se se tratassem de objectos obsoletos que apenas merecem renascer como partes de outros dispositivos mais “actuais” ou, ainda, de lhes acoplarmos novos arranjos construídos onde ganham o estatuto de espectáculo gratuito, aquilo a que amiúde se chama “fachadismo”, demonstra quão equívoca é a nossa relação com o “património”. As intervenções com “manutenção das fachadas” deverão ser encaradas como um embalsamamento dos edifícios, já que ao desmiolar o objecto, retira-se-lhe a lógica da sua concepção e as qualidades que deram sentido à obra. O interior existe sempre numa relação dialética com o exterior que cada cultura explora a partir da oposição entre o privado e público. É um processo muito complexo e só irresponsavelmente, poderá ser considerado de ânimo leve.

Pedagogias do património

A delicadeza das intervenções no património exige que politicamente se promovam discussões públicas ou se lancem concursos garantindo a isenção da escolha de soluções adequadas, de acordo com as boas práticas. O próprio conceito de concurso para intervenção no património pretende garantir a qualidade do gesto interventivo, como se o arquitecto – tantas vezes considerado um “demiurgo” e/ou profissional de renome – pela sua intervenção pudesse “santificar” um eventual crime – o da destruição do património. Isto porque as memórias das quais o património é portador, de um modo geral, perdem-se a cada nova “re-novação”. E os arquitectos sabem-no... Não nos iludamos, os concursos fazem parte do esquema geral do exercício do poder. Trata-se sobretudo de uma questão ideológica, para além das idiossincracias dos projectistas concorrentes. Neste contexto, para sermos rigorosos, quem destrói o património é quem estabelece os critérios do concurso, bem como o júri que os aplica. Porque, na verdade, um concurso é algo de muito abstracto pois não há uma metodologia universalmente aplicável à conservação ou à substituição das memórias. Podemos considerar que é sempre uma escolha entre manutenção e supressão, pois a Arquitectura, mais do que a palavra escrita ou a imagem, é o melhor receptáculo da memória. 
A célebre frase de Churchill, nós formamos os edifícios e depois eles formam-nos a nós 7, não fará definitivamente sentido? É que os gostos e as circunstâncias políticas são contingentes. É que a moda do reconhecimento público de um profissional é sempre transitória. É que o “espectáculo” da Arquitectura não é um verdadeiro espectáculo.O gesto interventivo pode apagar, e habitualmente apaga, aquilo que demorou séculos e dezenas de gerações a construir. Quem somos para pôr em causa a pedagogia de uma certa forma de memória colectiva que a cidade nos deverá oferecer? Poder-se-á sempre objectar que os tempos mudam e é necessário actualizar os dispositivos de uso, é verdade. Todavia, se essa “actualização” não surge espontaneamente, de acordo com a vida dos actores da cena urbana, mas, pelo contrário, através da vontade e interesses dos decisores políticos aquilo que se pode obter é um resultado que, só por milagre, não redundará em algo de artificial e desequilibrado.


O arquitectura e o seu público

A sistematização dos saberes, das formas e dos modos de fazer tem uma utilidade limitada. A Arquitectura não é puramente forma, não é algo de autónomo, de isolado, de conceptual que vale pela impressão estética que nos causa ou pelo desafio técnico que parece representar. A Arquitectura não é um jogo. A Arquitectura é, no mínimo, a hipótese de sobrevivência de uma comunidade num espaço que lhe é próprio. Relembremo-lo: institui ordem; impõe usos e suporta uma Cultura. Isso, obviamente, não quer dizer que não evolua. E que as formas não são apenas o resultado da lógica de operações construtivas. Tudo o que o homem produz tem um qualquer antecedente. Se não houver melhor fundamentação para as formas, só o facto destas remeterem para algo que deve ser relembrado ou comemorado parece já ser suficiente. E esse será o modo de mantermos presentes os princípios de um determinado sistema de valores que nos interessa ver reconhecido ou actualizado 8. A legislação deveria garanti-lo e, ironicamente, a discricionariedade política proíbe ou autoriza vários olhares técnicos sobre o mesmo objecto. Em tudo isto parece legitimar-se uma permissividade ilimitada (ou limitada a certos interesses). Mas, quem é o público da Arquitectura? Os arquitectos, eles próprios, os clientes/promotores ou as pessoas/utilizadores? 9

É urgente desmontar este mito de colecção de formas, de conteúdos ou de meras intenções, isto é, respectivamente, de simbologias, de sociologias ou de pseudo-psicologias 10 que modelou a cultura arquitectónica e que se tornou apanágio do século XVIII, quando se “re-organiza” o Mundo a partir de um saber enciclopédico, que durou até aos nossos dias. Ainda que a Arquitectura ingenuamente 11 coleccione modos de responder formalmente às complexas variações dos usos e das práticas espaciais, em cada tempo, mesmo com a aprovação embevecida da “intelligentsia”, não se faz Arquitectura contra as pessoas. Terá a Arquitectura chegado a um beco sem saída?

texto publicado no Jornal Arquitectos

01 dezembro 2016

Classe


Na sua complicada simplicidade os irmãos Dardénne continuam a não deixar de surpreender e a não deixar um charco sem pedrada. Nesta história, inspirada em eventos reais, não tão inimagináveis para quem se defronta com o mundo do trabalho, os trabalhadores são confrontados pelo patrão com a escolha entre o seu bónus anual ou manter uma das colegas na fábrica. Como a sua saúde a obrigou a faltar mais no último ano o chefe escolhe-a para ser a descartável neste exercício sádico que alguns ou muitos "empreendedores" ou "monitores" de recursos humanos dos nossos dias, entenderiam como um bom estratagema de reforço de produtividade e do espírito da equipa.
Apoiada pelo companheiro inicia uma maratona de fim-de-semana para convencer os seus colegas a abdicarem do seu bónus em favor da manutenção do seu emprego.  Aquilo que podia transformar-se num exercício constrangedor e a colocar na mais vulnerável das situações - não devia caber aos seus colegas a decisão sobre o seu emprego -  acaba por ser a construção de uma identidade política, para ela e para os outros, e a conquista da sua auto-estima e dignidade, mais importantes afinal que o emprego de que depende, ela e a família. 

"(...) E uma vez que sobre este ego pequeno-burguês não se exerce uma relação de pura subjugação, o sujeito considera-o ainda um bem precioso a manter em segurança, sob cujos despojos a relação social de mercadorização encontra maneira, na circunstância, de se esconder. Assim, se na mais brutal exploração pode habitar a solidariedade, no pânico pequeno-burguês prolifera pelo contrário apenas o prestígio. Com as suas cotações oscilantes, o prestígio é o interesse que se acumula e que atrai na mercadoria-eu (....) A fórmula "não há um instante de trabalho que não possa ser poupado" é na verdade a menos subjectiva, e nela se dissolve toda a contradição entre individuo e colectividade. Não diz respeito aos pequenos em conjunto, e não diz "não há um instante meu" ou "um instante de um certo trabalho", ou"não há aqui, não há agora (para nós que estamos aqui e agora ocupados) um instante..."; mas atinge o ilimitado e afirmando não há um instante...em que não exista um proletário com o qual não se possa ser solidário (...) Esta luta -uma solidariedade efectiva, e não uma luta pelo domínio (Jean Fallot, Lutte de classe e morale marxiste,1969) - é então, ainda segundo a afirmação marxista, véritable guerre civile. Subverte os antagonismos que regulam a sociedade capitalista, anunciando a sociedade sem classes. É na solidariedade que se prepara a última batalha, que "se unem e se desenvolvem todos os elementos necessários". 

Cavalletti, Andrea, Classe, Antígona, 2010.

08 outubro 2016

Dans la ville blanche

A cidade branca de Alain Tanner é um filme sem rumo, sem nada que o segure a não ser a promessa do início, quando um marinheiro suíço desembarca em Lisboa e se filma na Rocha Conde de Óbidos. Isso e a fabulosa Teresa Madruga.


O resto é uma colecção de clichés de alguém que aterra na cidade e como Wim Winders quer fazer um guião sobre as suas impressões naquilo que resulta num postal ilustrado. Assoberbado com o Tejo e com a pobreza das gentes, as melhores incursões são aos balcões das tabernas. A câmara é errática como o próprio filme, sente-se a sua presença o tempo todo anunciando pressa, amadorismo, uma falta de perspectiva, ou as três em conjunto. As imagens em filtro são para acentuar a tristeza das paredes pobres, velhas, descascadas. "E há uma empregada de quarto, com um diamante negro entre as pernas," anuncia por carta à sua namorada, que o espera na aborrecida e rica cidade, a mulher que encontrou neste sul decadente, sítio abandonado onde se pode também abandonar por um tempo, fugindo ao trabalho e às rotinas. 
Há no entanto uma verdade neste filme sobre Lisboa. Os bairros mais antigos da cidade estavam assim há 33 anos. Abandonados, pobres, em ruínas. E as suas gentes tinham-se habituado a viver assim. 



17 setembro 2016

La Voz Dormida












 Com José Saramago numa manifestação contra a guerra do Iraque


Dulce Chacón publicou em 2002 um romance sobre a Espanha no fim da guerra civil. A forma brutal como o regime fascista tratou os vencidos e todos os que com eles identificava. A escritora percorreu o país durante alguns anos na recolha de depoimentos de mulheres que reuniu num conjunto de personagens que dão corpo ao livro. Esta obra não só presta homenagem à memória dos que sucumbiram e ao sofrimento dos familiares e amigos, como o faz de forma clara e vigorosa num ritmo autónomo e invulgar. A simplicidade na estrutura e na narrativa que consegue quem atingiu, depois de montanhas de pedra transportadas, um domínio da língua que nos faz chegar a La Voz Dormida. Morreu um ano depois, nova demais, como as mulheres de que nos veio falar.