14 junho 2026

Marta Pessoa e os limites morais da salvadora branca

 Marta Pessoa fez um documentário com o nome atribuído pelo poder colonial a uma rapariga, trazida com outras dezenas de pessoas das colónias portuguesas, a fim de figurarem numa exposição na metrópole destinada a mostrar aos portugueses o seu império (Rosina e outros bichos do mato, 2023). À semelhança de outros países coloniais que produziram mostras de tipo zoológico, enquadrados por contextos ideológicos de afirmação das suas possessões para o qual concorreram algumas disciplinas da ciência. O filme percorre estas relações e a forma como sustentaram a formação de um racismo que se infiltrou e incrustou, especialmente nas sociedades herdeiras de passados coloniais. A realizadora traz para o presente as provas desta herança entrevistando jovens adolescentes portugueses afro-descendentes. Este momento e aqueles em que a atriz Binete Undonque interpreta o que Rosinha teria a dizer sobre a sua história, são os momentos mais implicados ou esforçados deste filme de denúncia ou exposição das narrativas construídas pelo Estado Novo. Na narrativa sobre a nação identifica a questão da mulher, e cruza o discurso sobre a mulher portuguesa verdadeira (do povo) com a mulher verdadeira indígena, Rosinha. Este movimento ou reflexão aparece-me com o mesmo desconforto na forma como o filme é descuidado ao abordar questões tão sensíveis. 

O filme percorre a imprensa da época para avaliar a recepção do evento ocorrido no Porto em 1936. Mas percorre-a ignorando a reflexão profunda recente feita na museologia e arquivos sobre as imagens produzidas em contextos coloniais, sobre como abordar pensar e apresentar essas imagens de forma crítica (Ariella Azoulay). O cinema e o cinema documental não podem colocar-de fora destas perguntas. 


“Filipa Lowndes Vicente, também questiona face aos últimos desenvolvimento historiográficos internacionais nesta área), mas múltiplas utilizações e produções de imagens em contexto colonial, cada uma delas passível de estruturas próprias e leituras que exigem um esforçado rigor crítico. (…)

aponta no seu ensaio de apresentação do livro as inquietações que esta questão coloca aos investigadores nacionais, uma vez que o caminho percorrido pelos estudos pós-coloniais em países como a Grã-Bretanha ou a França obriga necessariamente a repensar a nossa abordagem, tão tardia, à nossa própria História nesta matéria (…). É muito significativo que a coordenadora do projecto dedique grande parte do seu ensaio inaugural a questionar os limites éticos do estudo destas imagens, produzidas em contextos de subordinação política, social e cultural; interrogando-se sobre o direito dos investigadores a publicarem imagens que não foram produzidas para o ser, que foram, frequentemente, o resultado de actos de violência cometidos contra os povos colonizados. 

(Emília Tavares, Quando a História ainda é possível)

O Império da Visão: Fotografia no Contexto Colonial Português (1860-1960), 2015. 


A coordenador do livro em 2019,  VICENTE, Filipa L. “`Rosita` e o império como objecto do desejo.” In: Jornal Público, Série Racismo e Colonialismo. Lisboa, 14 de outubro. 

Cristina Roldão no mesmo jornal faz a crítica a este filme, Rosinha e os bichos do  Indie, 11 maio de 2023.


Como é possível em 2023 fazer um filme que ignora os discursos críticos prévios sobre a mesma personagem que vai abordar? Não é. Mais do que descuido o exercício crítico ao racismo que o filme pretende ser torna-se assim uma fraude (no sentido rigoroso do que está ausente) e ganha direito com isso a ser considerado extrativista ainda que as intenções possam não ter sido essas. Afinal dedica -se a reproduzir sem parar as imagens na tv e na imprensa da adolescente da Guiné, assumindo o nome colonial que lhe foi imposto. Reproduz e reitera assim a exploração do corpo negro, daquele corpo, desta vez por uma portuguesa branca no regime democrático.