29 outubro 2008
22 outubro 2008
17 outubro 2008
16 outubro 2008
13 outubro 2008
Para saberes que sou eu
I
Numa praia a ocidente
avistei a sereia
a cauda comprida
as escamas indigo
preparei os arpões
a lenha para o lume
e desde aí,
haja vagas ou calmaria
nem na praia nem no barco
houve mais sossego
Numa praia a ocidente
avistei a sereia
a cauda comprida
as escamas indigo
preparei os arpões
a lenha para o lume
e desde aí,
haja vagas ou calmaria
nem na praia nem no barco
houve mais sossego
12 outubro 2008
Chamem o Fukuyama
"Europa e EUA avançam para nacionalizações de bancos. " Público, 12/10/2008
Vitória vitória que não se acabou a história

09 outubro 2008
Nem menos nem mais direitos iguais
Amanhã é um dia histórico. Discute-se na assembleia da república a possibilidade do casamento entre pessoas do mesmo sexo. A moratória de Sócrates sobre o dever de voto na bancada socialista é obscena. Não tem outra palavra. E vem provar que os homossexuais são como qualquer outro ser, o primeiro-ministro é disso um vergonhoso exemplar. Não só sobre a sua opção em esconder para presumir uma eleição(que julgo uma presunção correcta) e mesmo a existência de uma vida política ( e sobre os efeitos nefastos de tamanha hipocrisia,não só na sua vida mas nas demais). Ainda que, no que nos diz respeito a todos, este não seja o seu pior crime. Se bem que esta ideologia dos hábitos e costumes não possa ou não deva ser separada das opções políticas, da mesma forma perniciosas, opacas, com falta de um empenho de coração, a falta total de uma ideologia. Se no plano genérico e económico é isso hoje tão facilmente reconhecido ao PS, amanhã quando os deputados deste partido votarem contra não é de outra coisa que estamos a falar. De qualquer forma não deixa de ser um dia importante para todos os homossexuais livres (e não só) deste país. Apesar de ouvir, como hoje no trabalho, que há assuntos mais importantes a tratar- como se a igualdade entre cidadãos fosse uma questão pequenina no contrato político a que estamos vinculados uns com os outros (Constituição?)- ou como se numa sociedade geradora de tantas desigualdades houvesse umas mais importantes do que outras (olha pá, n me importo que me paguemmenos que o meu colega por ser mulher porque há pessoas sem recursos para se tratarem nos hospitais públicos). As uniões de facto, ainda que consagrassem todos os direitos e garantias a que estão reservados os casamentos não seria suficiente para colocaras coisas no lugar. Porque a verdade é que as instituições sociais, como o casamento, configuram de forma simbólica o que uma sociedade tem como legitimado, e ao não legitimar, através do casamento ou da adopção, os casais do mesmo sexo, só estamos a afirmar que estes podem viver a sua vidinha desde que tuteladospor uma maioria silenciosa que norteia e normaliza empurrando para a sombra quem da sombra quer sair. Será preciso lembrar que não podemos viver em liberdade quando há pessoas na sombra
06 outubro 2008
Por um Museu da Liberdade

Foi pintado ontem na António Maria Cardoso. Um ensaio de um mural que deviamos ter nesse rua frente ao novo condomínio de luxo construído onde funcionou a sede da PIDE/DGS, já que o esperado Museu da Resistência e Liberdade terá de se constituir noutro lugar. Juntei às ligações o link para o movimento cívico Não Apaguem a Memória.
04 outubro 2008
O líder das cabeça de martelo
Hoje, como vivemos numa sociedade bem diferente do que preconiza e defende gente não só igual mas próxima do PNR e demais gorgulho branco, Mário Machdo foi condenado apenas a 4 anos de prisão efectiva. Apenas porque o nosso sistema penal, e bem, assenta no princípio de que ao cidadão deve ser dada a oportunidade de errar ou não de novo. E de que uma pena de prisão não deve destruir a vida inteira de um individuo ainda que este possa ter destruido a de muitos. Porque uma condenação não funciona como uma remissão integral dos pecados. Se fosse Mário Machado e seus acólitos bem podiam apodrecer na prisão. Mas ainda bem que não vão. Porque a sociedade que queremos é não autoritária. Na sociedade que Mário Machado idealiza o seu destino mais certo seria acabar com um tiro na cabeça (bala cobrada depois à sua esposa, se ela não a tivesse facultado do arsenal caseiro). Na nossa, daqui a uns tempos vem cá para fora, vai às tardes da Júlia, vende umas reportagens para a revista Sábado ou/e jornal Sol e volta a apanhar mais 4 anos depois de ser apanhado em flagrante a destuir campas judias ou a partir uma loja na mouraria.
29 setembro 2008
22 setembro 2008
Pouco ou nada é irrelevante
Clara Ferreira Alves escreveu este texto sobre a irrelevância de Cavaco Silva. Seria um texto interessante não fosse terminar daquele jeito que nos faz duvidar da natureza de tudo o que é dito antes. Ou não duvidamos e somente assumimos que Clara Ferreira Alves tem de ganhar a vida e é este o estilo que vende, o estilo dir-se-ia com crueldade. Ainda que Cabra Ferreira Alves tenha uma reputação belicosa e snob a defender, o que o texto concluí da origem socio-económico e geográfica do PR acaba por revelar-nos a enorme tacanhez e provincianismo da autora -sim, o provincianismo como descrito por Eça- o das vistas curtas- e com ele ignorar que a mesma pobreza política de Cavaco se encontra nos órgãos políticos dos grandes países europeus bem como nos apêndices ou órgãos nacionais (incluindo os órgãos de comunicação social), provando que a naturalidade de alguém é uma circunstância sociológica( e mais e mais) a ter em conta, e não um factor determinante para o que quer que seja. Se não fosse assim não seria a naturalidade e a formação cosmopolita de Clara Ferreira Alves suficiente para não ter visões tacanhas sobre centro/periferia, órgãos/apêndices, Boliqueime/Santa Comba/Covilhã/Cascais?

A irrelevância cavaquista
DESDE QUE o Presidente Cavaco foi eleito ainda não lhe ouvi uma palavra de jeito. O Presidente alinhava umas palavras em forma de discurso, soletra umas solenidades de circunstância, meia dúzia de lugares-comuns da sensatez e outras tantas banalidades, junta uma pitada de preocupação social e vago fervor patriótico, acrescenta umas generalidades institucionais e já está. Analistas políticos esparsos e à míngua de assunto e de política, desempregados de um regime sem ideologia, pragmático e material, que não pensa, não discute, não argumenta e apenas age e reage, tentam desesperados encontrar em Cavaco um pensamento, uma coerência ideológica ou, dada a necessidade de drama, uma ameaça.
Trabalhos ingratos porque Cavaco nada disto tem para dar. Nunca teve. A sua mediania coloca-o a salvo das grandes perplexidades contemporâneas e o seu desinteresse pela cultura política, ou outra, abrigam-no das interrogações que perturbaram Soares ou Sampaio, infinitamente mais cultos e mais cosmopolitas. Cavaco é o sucessor de Eanes sem a educação sociológica e histórica de Eanes. Ou seja, Eanes tornou-se um quase-intelectual com a passagem do tempo, e Cavaco permaneceu igual a si mesmo, modesto e frugal, limitado e deslocado, amarrado à âncora da sua ignorância. Cavaco detesta tempestades e mar largo, prefere porto seguro e águas calmas. Não seria o Presidente que eu quereria eleger, é o Presidente eleito. Tanto Manuel Alegre como Mário Soares teriam sido melhores Presidentes. Como dizem os cavaquistas conformados, Cavaco não tem mundo. O mal nem é este, o mal é que ele continua a não ter mundo. E o mundo não o tem a ele.
Daí os episódios paroquiais da viagem à Índia, com as queixas do "picante", ou as caricaturas de jornada onde Cavaco seja obrigado a descontrair e fazer humor. Não é o seu género. O seu género é a casa e a família, com umas incursões no país que ele genuinamente sente como seu, a seu modo. Um herói local. E um herói local incensado por um partido fundado por um homem forte e brilhante, Francisco Sá Carneiro. Um PSD que nunca encontrou substituto para o fundador e confundiu pequenas manifestações de autoritarismo e irritação com autoridade e carisma. O PSD inventou Cavaco: barões e intelectuais, bases e cúpulas, populistas e elitistas inventaram um chefe que foi rodar o carro à Figueira da Foz. Ele foi - de facto - rodar o carro à Figueira da Foz e o partido fez o resto. Faz lembrar um filme de Hal Ashby, adaptado de um romance de Jerzy Kozinsky, que conta a história de um homem simples e dado a pequenos aforismos, o jardineiro Mr. Chance, que ascende a Presidente dos Estados Unidos por um conjunto de circunstâncias. "Being There", ou "Bem-vindo Mr. Chance". É a obra-prima do grande Peter Sellers.
Passava-se aquilo num tempo em que Portugal e o mundo eram mais simples e da Europa escorria leite e mel. Cavaco administrou a fortuna misturando a parcimónia e o escrúpulo moral com a amoralidade e a rapina de negociantes políticos que ascenderam a milionários graças ao Estado. Foi um período de fartar vilanagem, e chegou para todos e para duas maiorias absolutas. O currículo académico de Cavaco, um economista mediano, ajudou-o num tempo em que começava o primado da economia sobre a política e em que o défice entrou no léxico nacional. Desígnio para o país Cavaco nunca teve, e plano para o famigerado "desenvolvimento" também não. Ninguém soube ou quis saber o que seria de Portugal daí a vinte anos porque a política portuguesa caracterizava-se pela miopia e o resultado eleitoral. O curto prazo. Pagamos hoje, duramente, as consequências desta ignorância. Sempre imaginei, academicamente, o que teria achado Sá Carneiro do seu sucessor.
O mundo entretanto mudou e o estatuto de Cavaco também. De primeiro-ministro activo passou a Presidente corta-fitas. É um lugar onde ele não faz o dano que faria como chefe do Executivo. As suas inexistências ontológicas continuam, com certa ternura, a mobilizar oráculos e análises com tanto rigor como a astrologia. Ler o desígnio de Cavaco é como ler o horóscopo. Interpretar o seu silêncio é como olhar para as estrelas. Um passatempo inofensivo que se tornou profissão. Os pequenos anúncios dos jornais estão cheios de sábios e professores que lêem o destino alheio. Inventaram a coabitação, como agora inventam o ódio. Nem Sócrates nem Cavaco têm a profundidade que os politólogos desocupados lhes querem atribuir. Embora Sócrates navegue em águas mais fundas que Cavaco. Por tudo isto, devo ser uma das pessoas que não sentiu irritação com o discurso de Cavaco sobre o estatuto político-administrativo dos Açores. É mais uma cena paroquial e uma anedota de Verão. Não estava à espera que ele fosse falar sobre o mundo complexo em que vivemos e vamos viver, com a perspicácia e a inteligência de um homem de Estado. Podemos tirar o rapaz de Boliqueime mas não podemos tirar Boliqueime do rapaz, dir-se-ia com crueldade. O Presidente Cavaco é um rapaz de Boliqueime e isso não é uma coisa boa. Nem má. É o que é. Num grande país europeu como a França, a Alemanha ou a Grã-Bretanha, Cavaco seria um apêndice, nunca um órgão político.
DESDE QUE o Presidente Cavaco foi eleito ainda não lhe ouvi uma palavra de jeito. O Presidente alinhava umas palavras em forma de discurso, soletra umas solenidades de circunstância, meia dúzia de lugares-comuns da sensatez e outras tantas banalidades, junta uma pitada de preocupação social e vago fervor patriótico, acrescenta umas generalidades institucionais e já está. Analistas políticos esparsos e à míngua de assunto e de política, desempregados de um regime sem ideologia, pragmático e material, que não pensa, não discute, não argumenta e apenas age e reage, tentam desesperados encontrar em Cavaco um pensamento, uma coerência ideológica ou, dada a necessidade de drama, uma ameaça.
Trabalhos ingratos porque Cavaco nada disto tem para dar. Nunca teve. A sua mediania coloca-o a salvo das grandes perplexidades contemporâneas e o seu desinteresse pela cultura política, ou outra, abrigam-no das interrogações que perturbaram Soares ou Sampaio, infinitamente mais cultos e mais cosmopolitas. Cavaco é o sucessor de Eanes sem a educação sociológica e histórica de Eanes. Ou seja, Eanes tornou-se um quase-intelectual com a passagem do tempo, e Cavaco permaneceu igual a si mesmo, modesto e frugal, limitado e deslocado, amarrado à âncora da sua ignorância. Cavaco detesta tempestades e mar largo, prefere porto seguro e águas calmas. Não seria o Presidente que eu quereria eleger, é o Presidente eleito. Tanto Manuel Alegre como Mário Soares teriam sido melhores Presidentes. Como dizem os cavaquistas conformados, Cavaco não tem mundo. O mal nem é este, o mal é que ele continua a não ter mundo. E o mundo não o tem a ele.
Daí os episódios paroquiais da viagem à Índia, com as queixas do "picante", ou as caricaturas de jornada onde Cavaco seja obrigado a descontrair e fazer humor. Não é o seu género. O seu género é a casa e a família, com umas incursões no país que ele genuinamente sente como seu, a seu modo. Um herói local. E um herói local incensado por um partido fundado por um homem forte e brilhante, Francisco Sá Carneiro. Um PSD que nunca encontrou substituto para o fundador e confundiu pequenas manifestações de autoritarismo e irritação com autoridade e carisma. O PSD inventou Cavaco: barões e intelectuais, bases e cúpulas, populistas e elitistas inventaram um chefe que foi rodar o carro à Figueira da Foz. Ele foi - de facto - rodar o carro à Figueira da Foz e o partido fez o resto. Faz lembrar um filme de Hal Ashby, adaptado de um romance de Jerzy Kozinsky, que conta a história de um homem simples e dado a pequenos aforismos, o jardineiro Mr. Chance, que ascende a Presidente dos Estados Unidos por um conjunto de circunstâncias. "Being There", ou "Bem-vindo Mr. Chance". É a obra-prima do grande Peter Sellers.
Passava-se aquilo num tempo em que Portugal e o mundo eram mais simples e da Europa escorria leite e mel. Cavaco administrou a fortuna misturando a parcimónia e o escrúpulo moral com a amoralidade e a rapina de negociantes políticos que ascenderam a milionários graças ao Estado. Foi um período de fartar vilanagem, e chegou para todos e para duas maiorias absolutas. O currículo académico de Cavaco, um economista mediano, ajudou-o num tempo em que começava o primado da economia sobre a política e em que o défice entrou no léxico nacional. Desígnio para o país Cavaco nunca teve, e plano para o famigerado "desenvolvimento" também não. Ninguém soube ou quis saber o que seria de Portugal daí a vinte anos porque a política portuguesa caracterizava-se pela miopia e o resultado eleitoral. O curto prazo. Pagamos hoje, duramente, as consequências desta ignorância. Sempre imaginei, academicamente, o que teria achado Sá Carneiro do seu sucessor.
O mundo entretanto mudou e o estatuto de Cavaco também. De primeiro-ministro activo passou a Presidente corta-fitas. É um lugar onde ele não faz o dano que faria como chefe do Executivo. As suas inexistências ontológicas continuam, com certa ternura, a mobilizar oráculos e análises com tanto rigor como a astrologia. Ler o desígnio de Cavaco é como ler o horóscopo. Interpretar o seu silêncio é como olhar para as estrelas. Um passatempo inofensivo que se tornou profissão. Os pequenos anúncios dos jornais estão cheios de sábios e professores que lêem o destino alheio. Inventaram a coabitação, como agora inventam o ódio. Nem Sócrates nem Cavaco têm a profundidade que os politólogos desocupados lhes querem atribuir. Embora Sócrates navegue em águas mais fundas que Cavaco. Por tudo isto, devo ser uma das pessoas que não sentiu irritação com o discurso de Cavaco sobre o estatuto político-administrativo dos Açores. É mais uma cena paroquial e uma anedota de Verão. Não estava à espera que ele fosse falar sobre o mundo complexo em que vivemos e vamos viver, com a perspicácia e a inteligência de um homem de Estado. Podemos tirar o rapaz de Boliqueime mas não podemos tirar Boliqueime do rapaz, dir-se-ia com crueldade. O Presidente Cavaco é um rapaz de Boliqueime e isso não é uma coisa boa. Nem má. É o que é. Num grande país europeu como a França, a Alemanha ou a Grã-Bretanha, Cavaco seria um apêndice, nunca um órgão político.
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