14 abril 2004

Famílas (a)Normais



É bastante curioso o entendimento que este Governo tem de família. Considerar família normal, aquela que se compõe de pai, mãe e filhos é, a todos os títulos, uma novidade.

Se tivermos em conta a história de Portugal vemos que desde a reconquista cristã, passando pelos descobrimentos, até aos mais recentes exílios políticos e de origem laboral proporcionados pelo fascismo, as famílias nunca foram maioritariamente assim. Os homens saiam em busca de "melhor sorte" ou de territórios deixando as mulheres sozinhas em casa a cuidar dos seus filhos. A normalidade, portanto, era a da união entre as mulheres, mães e avós, em torno da educação dos filhos. E claro havia os foras-da-lei. Existiam de facto! Gente que vivia fora das cidades e das suas leis. Não queriam nem aceitavam a ordem vigente e aí há muitos relatos de famílias muito diferentes... (das que este governo toma por iguais).

Isto tudo só para dizer uma coisa: por debaixo de uma capa de "fim das ideologias" e do apregoar da "normalidade" este governo não faz mais que tentar uma ideologia bem vincada de conservadorismo e da mais elementar agressividade aos direitos dos cidadãos, que cada vez mais não optam por esse tipo de famílias (felizmente).

rui

17 fevereiro 2004

"Por vezes é-se de esquerda por se ter nascido de esquerda. Uma nobreza herdada permite mostrar com orgulho uma genealogia do estilo. O catastrófico declínio da esquerda norte-americana enquanto movimento social,a forma como o seu húmus tem secado, interessam menos. Com frequência a esquerda encarna uma simpatia superior pelos desfavorecidos, não o seu movimento com vista à transformação da sociedade. quando as suas fileiras se reduzem, significando que irá tornar-se mais difícil obter assistência médica universal ou o direito de representação sindical, para uma parte da esquerda americana isso confirma, pelo contrário, um incremento do inconformismo a que está afeiçoada e a "criatividade" das ideias "rebeldes" que ela defende.

Insurgirem-se contra os "parolos" que agitam bandeiras estreladas torna-se então mais importante do que convencê-los a aderirem a um combate político com vocação maioritária. Porque muitas vezes, nos Estados Unidos, ser de esquerda não é fazer causa comum com o povo americano, é pregar-lhe sermões, corrigi-lo, apontando a dedo cada uma das insuficiências"
Tom Frank , A América que irá votar em George Bush, Le Monde Diplomatic, Fevereiro 2004.


quando leio o blogue do Miguel Vale de Almeida -e isto p ir respondendo ao texto terrorismo cultural que aqui anda- sinto que o Tom Frank poderia falar noutras esquerdas que não só a norte-americana.

05 fevereiro 2004

"Os meios de informação de massas estão em geral nas mãos de grandes consórcios que fazem parte integrante do sistema. Qualquer pessoa com um pouco de dinheiro pode mandar imprimir um texto ou difundi-lo através da internet ou de outra forma, mas aquilo que tiver a dizer ver-se-á submerso sob o imenso volume de informação produzidos pelos meios de massas, não podendo para isso ter efeito prático. Os grupos pequenos e os indivíduos estão impossibiilitados de exercer uma influência na sociedade através de escritos (...) Para fazer chegar a nossa mensagem ao público com alguma possibilidade de nele suscitarmos uma impressão duradoura, tivemos que matar pessoas"

Manifesto do Unabomber O futuro da sociedade industrial

17 janeiro 2004

" Livre-me Deus de eu estar aqui a querer atacar ou destruir o juramento de respeito pela propriedade que toda a nação ainda há pouco tempo pronunciou; mas dais-me licença de que exprima certas ideias sobre a injustiça de semelhante juramento? Qual é o espírito de um juramento feito por todos os indivíduos de uma nação? Não será manter uma perfeita igualdade entre os cidadãos, submetê-los a todos igualmente à lei que protege a propriedade de todos? Ora eu pergunto-vos se realmente é justa uma lei que ordene àquele que nada tem o respeito para com aquele que tudo possui. Quais são os elementos do pacto social? Não consistirá em cada um ceder um pouco da sua liberdade e das suas propriedades, de modo a assegurar e conseguir que uma e outra sejam conservadas?
(...)
um juramento deve ter iguais efeitos para todos os indivíduos que o pronunciam; é impossível que ele possa vincular aquele que nenhum interesse tem em vincular-se a ele, porque então deixaria de ser o pacto de um povo livre: passaria a ser a arma do forte contra o fraco, contra o qual este deveria incessantemente revoltar-se; ora é isto que acontece com o juramento que o pobre com tanta inconsideração pronuncia, sem ver que, mediante esse juramento, extorquido à sua boa fé, se compromete a fazer uma coisa que em seu favor ninguém poderia fazer.
"

Marquês de Sade, A Filosofia na Alcova

08 janeiro 2004

" Não vale a pena lutarmos, basta esperar, já que tudo acaba por passar na rua. No fundo só ela conta. E porque não? Espera por nós. É preciso descermos á rua, decidirmo-nos, não um, dois ou três dos nossos, mas todos. Ficamos lá, a fazer cerimónias e salamaleques, mas a coisa acaba por acontecer.
Em casa é que nada acontece de bom. Mal uma porta se fecha atrás de um homem, ele começa logo a deitar cheiro e tudo quanto traz consigo também. Faz-se logo ali ultrapassado de corpo e alma. Apodrece. Se cheiram mal, os homens, é muito bem feito. Deviámos prestar-lhes mais atenção! Devíamos faze-los sair, expulsar, expor. Os tipos que cheiram mal vão arrebicar-se para o quarto, e assim mesmo deitam cheiro.
Falando agora de famílias, eu cá sei de um farmacêutico da Avenida de Saint-Ouen que pôs um belo anúncio, um lindo reclamo na montra:"Para purgar uma família inteira, três francos a caixa"! Um sarilho! toda a gente arrota! Numa família é tudo em conjunto! Odeiam-se até deitar sangue, o verdadeiro lar é assim mas ninguém protesta porque é menos caro, ao cabo e ao resto, do que viver num hotel.
O hotel, falemos agora dele, é mais inquieto, não tem o ar pretensioso de um apartamento, sentimo-nos lá menos culpados. A raça humana nunca se mantém tranquila, e para nos aproximarmos do julgamento final, que há-de desenrolar-se na rua, o hotel é evidentemente onde estamos mais perto. Os anjos com trompetas podem lá chegar, e os primeiros vamos ser nós, os que sairmos do hotel."

Céline, Viagem Ao Fim Da Noite

04 janeiro 2004

" Já não parecia possível! Tornamo-nos rapidamente velhos, e de forma irremediável. Apercebemo-nos disso pelo jeito que apanhamos de amar a nossa própria desgraça, mesmo sem querer. É que a natureza tem mais força do que nós, aí está. Treina-nos num género, e depois já não podemos sair dele. Eu, por exemplo, tinha tomado o rumo da intranquilidade. A pouco e pouco vamos tomando o nosso papel e o nosso destino a sério, sem repararmos nisso, e depois quando caímos em nós é demasiado tarde para mudar. Fizemo-nos pessoas muito inquietas e, claro está, para sempre."


Céline, Viagem Ao Fim Da Noite

17 dezembro 2003

I
Aguarda
há algo que chama
maior que essa chama

são os dias
lestos desabridos
voláteis como o tempo