20 junho 2004
Era mesmo fixe - derrota histórica em Alvalade
É o que desejo para a selecção nacional em Alvalade. Por 1-0 ou por 3-0, será sempre uma derrota histórica, já que alguém assumiu que durante o mês do euro2004 se abriu uma janela para o povo voltar a habitar a substância do tempo. Depois, no fim do jogo, vai provar-se que a relação destes milhões de gajos fetichistas da bandeira com o Figo e cia se aproxima da relação do promitente com o santo, no fundo, uma outra forma de viver Fátima, mais real e imediata. No fim do jogo, se tudo correr bem, será consumada a derrota, consumado o falhanço da retribuição divina. Espero e desejo que os crentes queimem o templo, para variar. Seria fabuloso ver a multidão enfurecida de frustração a destruir as bancadas de Alvalade, a saltar cordões policiais para agredir os seus santos, a queimar a bandeira. Só tenho medo da profecia porque o meu irmão vai lá estar. Oxalá siga o conselho dos mais velhos e seja o primeiro a basar quando a coisa der para o torto.
livro de estilo
Então é isto o vosso/nosso blog a três? Catita. Tenho alguns problemas por resolver, entre eles perceber porque é que estou a escrever aqui. Como isto é feito por nós para nós vou assumir que me dirijo a suas excias sempre que aqui passe. Não me sinto à vontade para armar o palanque de onde vou arengar às massas, além de me estar a cagar para as massas tanto como elas se estão a cagar para mim. Como se inserem imagens?
17 junho 2004
assina o manifesto e manda para mulheresmedicina@sapo.pt
Mulheres em medicina sim,
retrocessos não!
Apoiando as declarações do presidente do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar de que deveriam existir quotas masculinas para os cursos de medicina, o senhor Ministro da Saúde fez a notável revelação:- as mulheres estão menos disponíveis para uma profissão que requer 24/24 horas, porque têm as responsabilidades domésticas e familiares.
Apraz-nos perguntar: O que dirá o senhor ministro das enfermeiras e das auxiliares de saúde ? Serão as mulheres que trabalham na área da saúde menos competentes e empenhadas que os seus colegas homens? O que faz o senhor ministro pensar que as responsabilidades familiares só têm de recair sobre as mulheres?
Estranha e não imbuída de ingenuidade ou de razões paritárias surge a actual preocupação sobre o défice de homens nos cursos de medicina. Para quem nunca se preocupou com qualquer sistema que garantisse o equilíbrio de representação de género no poder político estas recentes motivações são pouco claras. E, importa, de novo, perguntar: - as mulheres representam 45% dos médicos (2001), mas qual a percentagem de mulheres em cargos de direcção nos serviços hospitalares e nos centros de saúde? O défice é muito grande mas será que constitui motivo de preocupação para os actuais convertidos à causa das quotas?
Há posições que revelam intenções de retrocessos civilizacionais inadmissíveis como seja o de limitar o acesso das mulheres a profissões qualificadas até agora dominadas por "lobbies masculinos", porque elas devem continuar a ter como principal missão a casa e a família.
Há declarações que não podem ficar incólumes quando partem de membros responsáveis do governo. As declarações do ministro da saúde colidem com o texto da Constituição da República Portuguesa (artigos 13º, 36º e 68º).
Deste modo, exigimos que o senhor ministro da saúde se retrate e que os grupos parlamentares da Assembleia da República, órgão de soberania a quem compete a responsabilidade de "apreciar os actos do governo" exijam junto do Ministro da Saúde esclarecimentos sobre as suas declarações. Caso contrário, só resta uma saída digna - a demissão do Ministro da Saúde.
Adélia Pinhão (médica); Alice Frade (antropóloga); Alice Martins (jurista); Almerinda Bento (professora); Ana Augusta Matos (Bióloga); Ana Campos (ginecologista); Ana Matos Pires (médica); Ana Monteiro Ferreira (investigadora); Ana Silva Pinto (médica); Ana Sara Brito (enfermeira); Cláudia Conceição (docente e investigadora na Escola Nacional de Saúde); Clara Queiroz (Bióloga); Conceição Nogueira (professora universitária); Diana Andringa (jornalista); Elisabete Brasil (jurista); Fernanda Henriques (professora universitária); Filomena Delgado (jurista); Fina D' Armada (historiadora); Guiomar Favinha (administrativa); Helena Costa Araújo (professora universitária); Cecília Eira (médica); Helena Pinto (animadora sócio-cultural); Helena Lopes da Silva (cirurgiã); Isabel Allegro de Magalhães (professora universitária); Isabel do Carmo (médica); Isabel Cruz (técnica sup. da adm. local); Isabel Rebelo (técnica de intervenção social); Isabel Vinhas (médica); José Hipólito dos Santos (economista); José Miguel Silva Pinto (médico); Laura Fonseca (professora universitária); Lígia Amâncio (professora universitária); Luís Sousa (arquitecto); Luisa Corvo (Bio-química); Manuela Tavares (professora); Maria José Alves (médica-ginecologista); Maria José Magalhães (professora universitária); Maria José Mestre (professora); Margarida Amélia; Paula Botelho Gomes (professora universitária); Rita Domingues (antropóloga); Teresa Cunha (professora); Teresa Joaquim (professora universitária); Teresa Pinto (investigadora); Dimitilde Gomes /advogada); Ana Pina Cabral (Advogada)
retrocessos não!
Apoiando as declarações do presidente do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar de que deveriam existir quotas masculinas para os cursos de medicina, o senhor Ministro da Saúde fez a notável revelação:- as mulheres estão menos disponíveis para uma profissão que requer 24/24 horas, porque têm as responsabilidades domésticas e familiares.
Apraz-nos perguntar: O que dirá o senhor ministro das enfermeiras e das auxiliares de saúde ? Serão as mulheres que trabalham na área da saúde menos competentes e empenhadas que os seus colegas homens? O que faz o senhor ministro pensar que as responsabilidades familiares só têm de recair sobre as mulheres?
Estranha e não imbuída de ingenuidade ou de razões paritárias surge a actual preocupação sobre o défice de homens nos cursos de medicina. Para quem nunca se preocupou com qualquer sistema que garantisse o equilíbrio de representação de género no poder político estas recentes motivações são pouco claras. E, importa, de novo, perguntar: - as mulheres representam 45% dos médicos (2001), mas qual a percentagem de mulheres em cargos de direcção nos serviços hospitalares e nos centros de saúde? O défice é muito grande mas será que constitui motivo de preocupação para os actuais convertidos à causa das quotas?
Há posições que revelam intenções de retrocessos civilizacionais inadmissíveis como seja o de limitar o acesso das mulheres a profissões qualificadas até agora dominadas por "lobbies masculinos", porque elas devem continuar a ter como principal missão a casa e a família.
Há declarações que não podem ficar incólumes quando partem de membros responsáveis do governo. As declarações do ministro da saúde colidem com o texto da Constituição da República Portuguesa (artigos 13º, 36º e 68º).
Deste modo, exigimos que o senhor ministro da saúde se retrate e que os grupos parlamentares da Assembleia da República, órgão de soberania a quem compete a responsabilidade de "apreciar os actos do governo" exijam junto do Ministro da Saúde esclarecimentos sobre as suas declarações. Caso contrário, só resta uma saída digna - a demissão do Ministro da Saúde.
Adélia Pinhão (médica); Alice Frade (antropóloga); Alice Martins (jurista); Almerinda Bento (professora); Ana Augusta Matos (Bióloga); Ana Campos (ginecologista); Ana Matos Pires (médica); Ana Monteiro Ferreira (investigadora); Ana Silva Pinto (médica); Ana Sara Brito (enfermeira); Cláudia Conceição (docente e investigadora na Escola Nacional de Saúde); Clara Queiroz (Bióloga); Conceição Nogueira (professora universitária); Diana Andringa (jornalista); Elisabete Brasil (jurista); Fernanda Henriques (professora universitária); Filomena Delgado (jurista); Fina D' Armada (historiadora); Guiomar Favinha (administrativa); Helena Costa Araújo (professora universitária); Cecília Eira (médica); Helena Pinto (animadora sócio-cultural); Helena Lopes da Silva (cirurgiã); Isabel Allegro de Magalhães (professora universitária); Isabel do Carmo (médica); Isabel Cruz (técnica sup. da adm. local); Isabel Rebelo (técnica de intervenção social); Isabel Vinhas (médica); José Hipólito dos Santos (economista); José Miguel Silva Pinto (médico); Laura Fonseca (professora universitária); Lígia Amâncio (professora universitária); Luís Sousa (arquitecto); Luisa Corvo (Bio-química); Manuela Tavares (professora); Maria José Alves (médica-ginecologista); Maria José Magalhães (professora universitária); Maria José Mestre (professora); Margarida Amélia; Paula Botelho Gomes (professora universitária); Rita Domingues (antropóloga); Teresa Cunha (professora); Teresa Joaquim (professora universitária); Teresa Pinto (investigadora); Dimitilde Gomes /advogada); Ana Pina Cabral (Advogada)
16 junho 2004
investimentos
A organização do euro2004 investiu, como não podia deixar de ser, em merchandizing. Pagou para isso a uma empresa que entende destas coisas e por isso criaram um boneco tão tonto como o gil da expo, o quinas.
Devia esperar-se uma receita importante do investimento mas o quinas repousa incólume em prateleiras de papelarias e semelhantes. A receita fugiu toda para o fulgor da bandeira verde e vermelha made in China e exportada de Inglaterra para cá. O nacionalismo é bonito, fica bem à janela. As janelas portuguesas também são bonitas. Tantos séculos de negócios não ensinam grande coisa a não ser que, pelo sim pelo não, é sempre melhor o Estado chegar-se à frente nas ideias e nos prejuízos.
08 junho 2004
euros
E tu, também sentes a crise do pilim a avolumar? Não pode um gajo já encher o depósito, pão e leite para o pequeno almoço, o jornal e a bica, sem ter de gastar mais do que irá ganhar nesse dia. Bendito seja o verão. Pode um gajo pôr de lado a folha do cartaz do jornal, deixar as sardinhas assadas para o ano, fumar menos, andar de transportes sem pagar, não pagar a conta da net, e ainda assim consolar-se com a cidade luminosa e consolar-se em não ir votar.
14 abril 2004
Famílas (a)Normais
É bastante curioso o entendimento que este Governo tem de família. Considerar família normal, aquela que se compõe de pai, mãe e filhos é, a todos os títulos, uma novidade.
Se tivermos em conta a história de Portugal vemos que desde a reconquista cristã, passando pelos descobrimentos, até aos mais recentes exílios políticos e de origem laboral proporcionados pelo fascismo, as famílias nunca foram maioritariamente assim. Os homens saiam em busca de "melhor sorte" ou de territórios deixando as mulheres sozinhas em casa a cuidar dos seus filhos. A normalidade, portanto, era a da união entre as mulheres, mães e avós, em torno da educação dos filhos. E claro havia os foras-da-lei. Existiam de facto! Gente que vivia fora das cidades e das suas leis. Não queriam nem aceitavam a ordem vigente e aí há muitos relatos de famílias muito diferentes... (das que este governo toma por iguais).
Isto tudo só para dizer uma coisa: por debaixo de uma capa de "fim das ideologias" e do apregoar da "normalidade" este governo não faz mais que tentar uma ideologia bem vincada de conservadorismo e da mais elementar agressividade aos direitos dos cidadãos, que cada vez mais não optam por esse tipo de famílias (felizmente).
rui
17 fevereiro 2004
"Por vezes é-se de esquerda por se ter nascido de esquerda. Uma nobreza herdada permite mostrar com orgulho uma genealogia do estilo. O catastrófico declínio da esquerda norte-americana enquanto movimento social,a forma como o seu húmus tem secado, interessam menos. Com frequência a esquerda encarna uma simpatia superior pelos desfavorecidos, não o seu movimento com vista à transformação da sociedade. quando as suas fileiras se reduzem, significando que irá tornar-se mais difícil obter assistência médica universal ou o direito de representação sindical, para uma parte da esquerda americana isso confirma, pelo contrário, um incremento do inconformismo a que está afeiçoada e a "criatividade" das ideias "rebeldes" que ela defende.
Insurgirem-se contra os "parolos" que agitam bandeiras estreladas torna-se então mais importante do que convencê-los a aderirem a um combate político com vocação maioritária. Porque muitas vezes, nos Estados Unidos, ser de esquerda não é fazer causa comum com o povo americano, é pregar-lhe sermões, corrigi-lo, apontando a dedo cada uma das insuficiências" Tom Frank , A América que irá votar em George Bush, Le Monde Diplomatic, Fevereiro 2004.
quando leio o blogue do Miguel Vale de Almeida -e isto p ir respondendo ao texto terrorismo cultural que aqui anda- sinto que o Tom Frank poderia falar noutras esquerdas que não só a norte-americana.
Insurgirem-se contra os "parolos" que agitam bandeiras estreladas torna-se então mais importante do que convencê-los a aderirem a um combate político com vocação maioritária. Porque muitas vezes, nos Estados Unidos, ser de esquerda não é fazer causa comum com o povo americano, é pregar-lhe sermões, corrigi-lo, apontando a dedo cada uma das insuficiências" Tom Frank , A América que irá votar em George Bush, Le Monde Diplomatic, Fevereiro 2004.
quando leio o blogue do Miguel Vale de Almeida -e isto p ir respondendo ao texto terrorismo cultural que aqui anda- sinto que o Tom Frank poderia falar noutras esquerdas que não só a norte-americana.
05 fevereiro 2004
"Os meios de informação de massas estão em geral nas mãos de grandes consórcios que fazem parte integrante do sistema. Qualquer pessoa com um pouco de dinheiro pode mandar imprimir um texto ou difundi-lo através da internet ou de outra forma, mas aquilo que tiver a dizer ver-se-á submerso sob o imenso volume de informação produzidos pelos meios de massas, não podendo para isso ter efeito prático. Os grupos pequenos e os indivíduos estão impossibiilitados de exercer uma influência na sociedade através de escritos (...) Para fazer chegar a nossa mensagem ao público com alguma possibilidade de nele suscitarmos uma impressão duradoura, tivemos que matar pessoas"
Manifesto do Unabomber O futuro da sociedade industrial
Manifesto do Unabomber O futuro da sociedade industrial
17 janeiro 2004
" Livre-me Deus de eu estar aqui a querer atacar ou destruir o juramento de respeito pela propriedade que toda a nação ainda há pouco tempo pronunciou; mas dais-me licença de que exprima certas ideias sobre a injustiça de semelhante juramento? Qual é o espírito de um juramento feito por todos os indivíduos de uma nação? Não será manter uma perfeita igualdade entre os cidadãos, submetê-los a todos igualmente à lei que protege a propriedade de todos? Ora eu pergunto-vos se realmente é justa uma lei que ordene àquele que nada tem o respeito para com aquele que tudo possui. Quais são os elementos do pacto social? Não consistirá em cada um ceder um pouco da sua liberdade e das suas propriedades, de modo a assegurar e conseguir que uma e outra sejam conservadas?
(...)
um juramento deve ter iguais efeitos para todos os indivíduos que o pronunciam; é impossível que ele possa vincular aquele que nenhum interesse tem em vincular-se a ele, porque então deixaria de ser o pacto de um povo livre: passaria a ser a arma do forte contra o fraco, contra o qual este deveria incessantemente revoltar-se; ora é isto que acontece com o juramento que o pobre com tanta inconsideração pronuncia, sem ver que, mediante esse juramento, extorquido à sua boa fé, se compromete a fazer uma coisa que em seu favor ninguém poderia fazer."
Marquês de Sade, A Filosofia na Alcova
(...)
um juramento deve ter iguais efeitos para todos os indivíduos que o pronunciam; é impossível que ele possa vincular aquele que nenhum interesse tem em vincular-se a ele, porque então deixaria de ser o pacto de um povo livre: passaria a ser a arma do forte contra o fraco, contra o qual este deveria incessantemente revoltar-se; ora é isto que acontece com o juramento que o pobre com tanta inconsideração pronuncia, sem ver que, mediante esse juramento, extorquido à sua boa fé, se compromete a fazer uma coisa que em seu favor ninguém poderia fazer."
Marquês de Sade, A Filosofia na Alcova
08 janeiro 2004
" Não vale a pena lutarmos, basta esperar, já que tudo acaba por passar na rua. No fundo só ela conta. E porque não? Espera por nós. É preciso descermos á rua, decidirmo-nos, não um, dois ou três dos nossos, mas todos. Ficamos lá, a fazer cerimónias e salamaleques, mas a coisa acaba por acontecer.
Em casa é que nada acontece de bom. Mal uma porta se fecha atrás de um homem, ele começa logo a deitar cheiro e tudo quanto traz consigo também. Faz-se logo ali ultrapassado de corpo e alma. Apodrece. Se cheiram mal, os homens, é muito bem feito. Deviámos prestar-lhes mais atenção! Devíamos faze-los sair, expulsar, expor. Os tipos que cheiram mal vão arrebicar-se para o quarto, e assim mesmo deitam cheiro.
Falando agora de famílias, eu cá sei de um farmacêutico da Avenida de Saint-Ouen que pôs um belo anúncio, um lindo reclamo na montra:"Para purgar uma família inteira, três francos a caixa"! Um sarilho! toda a gente arrota! Numa família é tudo em conjunto! Odeiam-se até deitar sangue, o verdadeiro lar é assim mas ninguém protesta porque é menos caro, ao cabo e ao resto, do que viver num hotel.
O hotel, falemos agora dele, é mais inquieto, não tem o ar pretensioso de um apartamento, sentimo-nos lá menos culpados. A raça humana nunca se mantém tranquila, e para nos aproximarmos do julgamento final, que há-de desenrolar-se na rua, o hotel é evidentemente onde estamos mais perto. Os anjos com trompetas podem lá chegar, e os primeiros vamos ser nós, os que sairmos do hotel."
Céline, Viagem Ao Fim Da Noite
Em casa é que nada acontece de bom. Mal uma porta se fecha atrás de um homem, ele começa logo a deitar cheiro e tudo quanto traz consigo também. Faz-se logo ali ultrapassado de corpo e alma. Apodrece. Se cheiram mal, os homens, é muito bem feito. Deviámos prestar-lhes mais atenção! Devíamos faze-los sair, expulsar, expor. Os tipos que cheiram mal vão arrebicar-se para o quarto, e assim mesmo deitam cheiro.
Falando agora de famílias, eu cá sei de um farmacêutico da Avenida de Saint-Ouen que pôs um belo anúncio, um lindo reclamo na montra:"Para purgar uma família inteira, três francos a caixa"! Um sarilho! toda a gente arrota! Numa família é tudo em conjunto! Odeiam-se até deitar sangue, o verdadeiro lar é assim mas ninguém protesta porque é menos caro, ao cabo e ao resto, do que viver num hotel.
O hotel, falemos agora dele, é mais inquieto, não tem o ar pretensioso de um apartamento, sentimo-nos lá menos culpados. A raça humana nunca se mantém tranquila, e para nos aproximarmos do julgamento final, que há-de desenrolar-se na rua, o hotel é evidentemente onde estamos mais perto. Os anjos com trompetas podem lá chegar, e os primeiros vamos ser nós, os que sairmos do hotel."
Céline, Viagem Ao Fim Da Noite
04 janeiro 2004
" Já não parecia possível! Tornamo-nos rapidamente velhos, e de forma irremediável. Apercebemo-nos disso pelo jeito que apanhamos de amar a nossa própria desgraça, mesmo sem querer. É que a natureza tem mais força do que nós, aí está. Treina-nos num género, e depois já não podemos sair dele. Eu, por exemplo, tinha tomado o rumo da intranquilidade. A pouco e pouco vamos tomando o nosso papel e o nosso destino a sério, sem repararmos nisso, e depois quando caímos em nós é demasiado tarde para mudar. Fizemo-nos pessoas muito inquietas e, claro está, para sempre."
Céline, Viagem Ao Fim Da Noite
Céline, Viagem Ao Fim Da Noite
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